Técnicas de BD

Lição 2

 

Os Planos

Nos Planos, as acções afastam-se ou aproximam-se segundo o interesse da acção e o que querem mostrar: um ambiente, uma expressão ou um gesto. Os planos são importantes no andamento da história, já que cada um representa um tempo de leitura, uma possibilidade expressiva e um grau emocional diferente, mas isso fica lá mais para diante; vamos, no entanto, começar por conhecer os diferentes planos.

 

Plano Geral - PG

Mostra-nos uma paisagem. Embora se possa ver alguma figura, o papel principal joga-o o ambiente. Serve para nos dar a conhecer um dado sítio ou onde se irá desenrolar uma acção. Quando o plano tem uma grande profundidade de campo chama-se Plano Geral Extremo (PGE). Aqui as figuras não se podem apreciar e é pouco utilizado na BD.

Fig 24- © Enki Bilal

 

Plano de Conjunto -PC

É onde o ambiente e as personagens têm todo o seu valor. Não podendo existir, para o bom entendimento da vinheta, um sem o outro. Aqui as figuras têm todo o seu esplendor e mostram-se de corpo inteiro.

   Fig 25 - © Le Lombard / Franz

 

Plano Inteiro - PI

Também aqui as figuras se mostram inteiras e com todo o seu esplendor enquanto ao ambiente ao seu redor quase não se lhe faz referência. Estes planos dão mais autoridade às figuras, ajudando-nos a concentrar a atenção nos movimentos sem ser perturbados pelo ambiente ou paisagem circundante.

 

 Fig 26 - © Bagheera Editeur / Serpieri

 

Plano Americano - PA

O plano americano aproxima-nos um pouco mais as figuras, cortando-as pelos joelhos. As personagens ocupam totalmente o centro de atenção do leitor podendo estes apreciar facilmente as suas feições.

Fig 27 - © Bagheera Editeur / Serpieri

 

Plano Médio - PM

Aproxima-nos mais ainda das figuras; agora estas estão cortadas pela cintura. Poderemos apreciar os seus rostos assim como o que eles possam reflectir. Ao plano que nos apresenta a figura cortada pelo peito chamamos de: Plano Médio Aproximado - PMA

Fig 28 - © Jean Giraud

 

Primeiro Plano - PP

Poderemos apreciar melhor ainda a expressão das personagens, já que os limites da vinheta enquadram somente o rosto. Este plano costuma ser desenhado numa vinheta pequena e, muitas vezes, sem balão de diálogo por se tratar de um tempo breve.

Fig 29 - © Le Lombard / Kas

 

Primeiríssimo Plano - PPP

Aproxima mais ainda a figura, mostrando somente uma parte do rosto como, por exemplo, os olhos numa expressão de medo.

Fig 30 - © Le Lombard / Andreas

 

Plano de Detalhe - PD

Este plano é utilizado somente em casos especiais e serve para levar o leitor a prestar a máxima atenção a algo que tem a ver com o desenrolar da história e que, noutros planos, passaria despercebido. Uma mensagem escrita deixada sobre uma mesa, uma mão furtando algo de interessante, etc.

 

Fig 31- © Le Lombard / Chaillet

 

Ângulos de Visão

Os ângulos de visão são o ponto de onde a partir do qual se observa as acções. Existem três: ângulo de visão médio, picado e contrapicado.

 

Ângulo de Visão Médio

A acção desenrola-se à altura dos nossos olhos. É o mais utilizado em BD

Fig 32- © Le Lombard / Swolfs

 

Ângulo de Visão Picado

A acção é focada de cima para baixo como se olhasse-mos do cimo de uma varanda, vendo assim as personagens em PICADO.

Fig 33 - © Le Lombard / Kas

 

Ângulo de Visão Contrapicado

Este ângulo de visão é o oposto do anterior. Focamos a acção de baixo para cima como se olhasse-mos alguém sobre uma varanda estando nós no solo.

Fig 34- © Le Lombard / Hermann

 

O Centro de Interesse

Não é coisa fácil fazer realçar o centro de interesse ou a personagem principal no meio de tantas outras e, pior ainda, quando o centro de interesse se encontra no segundo ou terceiro planos.

Normalmente os principiantes caem numa série de erros que fazem com que as suas vinhetas fiquem confusas e com falta de profundidade.

O erro mais frequente é tentar desenhar um grupo de figuras sem que umas tapem as outras, dispondo-as como se fosse em fila. Um outro erro é valorizar os diferentes planos com a mesma intensidade de claro-escuro esquecendo assim que o ar que se encontra entre o primeiro e o último plano vai atenuando a intensidade dos escuros, assim como os detalhes dos rostos e das roupagens, pondo em evidência a frase que diz: À distancia tudo é mais claro e, ao mesmo tempo, mais escuro. É isso mesmo; os brancos que se encontram longe vemo-los mergulhados numa cor cinzento-azulada, portanto mais escuros, e os negros perdem intensidade parecendo mais claros. Mas, como se deve proceder para fazer realçar o centro de interesse?

Bem, como disse, o ar é um elemento e, como tanto, podemos vê-lo. Portanto, se desenharmos o centro de interesse em primeiro plano deveremos tratá-lo mais vigorosamente e com um jogo de sombras e pormenores completos enquanto os que ocupam os últimos planos serão suavizados, sem sombras e com um menor número de pormenores, ganhando assim o centro de interesse da vinheta a atenção do leitor. (A isto chamamos perspectiva ou degradação tonal).

Pode acontecer também que a figura principal ou o centro de interesse esteja em segundo plano; portanto, menos vigoroso que as figuras em primeiro plano, o que nos obriga a despersonalizar estas que estão mais perto. E como?

Simplesmente desenhando as figuras em primeiro plano de costas ou meio cortadas pelo quadro da vinheta para que percam interesse obrigando o leitor a procurar, inconscientemente, outra motivação, ou seja, a figura principal desenhada de frente. Mesmo que esta esteja em segundo plano tem assim mais interesse que as do primeiro.

Se o centro de interesse, neste caso a figura principal, se encontrar de costas perderá o interesse passando assim despercebida. Então teremos de recorrer a outro truque que é o de dirigir até ele todas as linha do desenho, como, por exemplo, o olhar das outras personagens ou as linhas de perspectiva do desenho. (figura 37).

Outra maneira seria desenhar a figura principal a tons escuros no meio de tons claros ou vice–versa.

Nesta figura a vinheta tratada com perspectiva tonal. Repare que o primeiro plano ganha interesse, situando aí o centro da acção

Aqui a figura principal encontra-se em ultimo plano, é um grupo de cavaleiros. Em primeiro plano temos um grupo de personagens que apontam até esse grupo e, até as linhas das montanhas fugam para esse grupo. Ele é sem duvida o centro de interesse.

Fig 36- © Le Lombard / Chaillet

 

Fig 37 - © Le Lombard / Kas - Rosinki

O centro de interesse neste caso é quase imperceptível, fica na inteligência do desenhador faze-lo realçar para que a cena ganhe valor artístico e entendimento. Neste caso são dirigidas para o centro de interesse as linha do desenho e os olhares das personagens etc.

 

A Montagem

O que é a montagem?... Sim, sim, parece que estamos a falar de um filme, mas que é a banda desenhada senão uma história contada por imagens, tal como o cinema, só que aqui lhe falta o movimento - e aí está o segredo da montagem, dar essa ilusão através da:

Só combinando estes três factores chegaremos a um ritmo adequado conseguindo uma narração perfeita.

 

Planificação de Acção

O primeiro passo que deve dar o desenhador é distribuir o argumento pelas páginas de que dispõe, cortando algumas vinhetas ou juntando duas numa só, se esse trabalho não foi já feito pelo guionista. Isto é, deve separar as sequências do guião e dar a cada uma o número de vinhetas necessário para que essa sequência se possa entender com a sua devida importância. Ou seja, às sequências mais importantes dará um número maior de vinhetas, enquanto que as de menor importância podem ser resolvidas em uma ou duas vinhetas. De seguida deverá atribuir a cada vinheta o tamanho justo; à vinheta mais importante dentro da sequência deverá dar um tamanho maior e menor tamanho à vinheta de menor importância dentro dessa sequência. Dentro destas vinhetas desenharemos, então, as acções, que podem ser uma ou mais por vinheta, segundo o caso. Por exemplo: “Uma personagem, ao ser apanhada pelos guardas armados de lanças, puxa pela sua espada e prepara-se para combater.” Aqui existem duas acções; poderiam existir, também, duas vinhetas? Vamos então ver dois casos práticos.

No primeiro exemplo temos duas vinhetas para narrar estas acções.

- Primeira vinheta, com a primeira acção, os guardas apontam as lanças ao protagonista.

- Segunda vinheta, com a segunda acção, o protagonista puxa pela sua espada e prepara-se para o combate.

Bem, não está mal de todo, mas vamos experimentar juntar essas duas vinhetas numa só.

O segundo exemplo dá-nos uma só vinheta com as acções dos guardas ameaçadores e, diante deles, o protagonista que desembainha a espada. Este segundo exemplo parece-me o melhor, visto que no primeiro nos dá um tempo longo com a ilusão de que o protagonista teria passado alguns instantes a pensar se se defenderia ou não; Na seguinte não esperou e ao ver-se ameaçado se defende. Mas porquê o primeiro exemplo nos parece um tempo longo? Simplesmente porque sendo duas acções quase simultâneas têm de estar juntas para que não exista esse espaço de tempo entre uma vinheta e outra.

Há que pensar que quantas mais vinhetas utilizamos para narrar uma acção, mais lenta esta se nos apresenta.

 

Distribuição de tempo

Qual será o tempo dentro da vinheta?

Como já vimos, se é um plano geral, portanto uma vinheta maior, o tempo é longo; mas se é um primeiro plano o tempo é curto pois a vinheta é pequena e só enquadra o rosto de uma personagem.

Este seria o tempo da vinheta, mas como deverá ser o tempo transcorrido entre duas vinhetas ou imagens? Bem, aqui parece realmente um problema, porque esse tempo é o que dá o ritmo ou andamento à história e uma história muito lenta acabaria por cansar o leitor.

Como sabemos, em certas alturas o ritmo deve ser muito rápido, tal é o caso de uma perseguição, ou muito lento como uma cena de amor. Então o que há a fazer para que o leitor possa ver essa cena com a rapidez que nós lhe quisemos atribuir?

Ora bem, sendo a história do tipo fragmentado, há ocasiões em que as imagens das vinhetas se seguem uma às outras a pouca distância, sendo a primeira vinheta seguida da segunda e esta da terceira, sem que a acção se desenrole muito, ou seja, os protagonistas tiveram pouco tempo entre as vinhetas para fazer grandes coisas ou percorrer um trajecto maior e a acção apresenta-se-nos como se fosse narrada em câmara lenta. Uma história contada assim dá-nos um tempo longo e, como disse antes, é o ideal para narrar uma cena de amor.

Por outro lado, contar uma sequência em vinhetas isoladas e, à primeira vista, independentes umas das outras, dá-nos um ritmo narrativo muito rápido, tão rápido que entre uma vinheta e outra aconteceu algo que não está representado, é como uma velocidade vertiginosa que não se consegue acompanhar. Essa é a ilusão que teremos de transmitir às nossas cenas.

Além disso deve ter-se em atenção para que as acções simultâneas não fiquem em vinhetas separadas

 

Percurso Visual da História

É mais um truque que nos dá o movimento da história. Como sabemos as frases escrevem-se e lêem-se da esquerda para a direita; Também a banda desenhada se desenrola da esquerda para a direita, seguindo a direcção das palavras escritas e as suas personagens se movem, na maioria dos casos, nesse sentido... Mas porquê?

Talvez nem todos os profissionais estejam de acordo comigo, mas, se seguíssemos a leitura da história da esquerda para a direita e as acções se desenrolassem no sentido inverso, o passo da leitura, acompanhado pela visão das imagens, seria travado, fazendo assim com que os ritmos rápidos se tornassem lentos e os lentos, tão lentos a pontos de nos cansarem. Temos, portanto, de seguir o percurso visual da história ajudados pelo desenho que irá seguir esse caminho. Há no entanto cenas que se desenrolam no sentido inverso, mas esses são casos especiais a que queremos dar uma maior atenção e fazer com que o leitor se detenha aí como se por uma ordem nossa sem que ele se aperceba.

 

Um Exemplo do Japão

— O quê?... O Japão?...

— Sim, espere e verá!

Situado a Este da Ásia, é uma ilha com 377.535 quilómetros quadrados e mais 3500 pequenas ilhas.

No século XVI os portugueses foram os primeiros estrangeiros a lá chegar e a promover o comercio, muitas palavras japonesas, por muito estranho que pareça, derivam das portuguesas, tais como cadeira, “cadera”; bolo, “boro”; obrigado, “Arigato” etc.

Mas o que foi o Japão depois disso?

Um país isolado e sem forças, até que em Dezembro de 1941, atacou os americanos em Pearl Harbour e oito meses depois,  sofre as consequências de duas bombas atómicas, facto que fez com que tivessem ganho a coragem de recomeçar e que hoje têm.

O Japão é um país ordenado, supermoderno, com um aspecto futurista, com caminhos-de-ferro suspensos e cidades subterrâneas, um país que levou a electrónica às dimensões microscópicas, um país com os dez maiores bancos mundiais, um país que compra por milhões de dólares obras de arte europeias, um país com 120.300.000 habitantes e que, além de tudo, respeita e dá continuidade aos velhos mitos, um país que nos invade todos os dias com as suas novidades, Um país que está à cabeça na leitura da Banda Desenhada (Manga) com uma média anual de 15 álbuns de BD por habitante.

Os Velhos ritos, a alta tecnologia e a banda desenhada de mãos dadas. É maravilhoso.

 

 

Desenho

Guião

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