Guião

Lição 4

 

Os Textos

A importância dos textos é enorme para o entendimento do guião e são um meio que, utilizado correctamente, ajuda a tapar essas lacunas de que se falou anteriormente; as que existem entre uma sequência e outra.

Existem quatro tipos de textos, que são: textos narrativos, diálogos, onomatopeias e textos de enlace. Eles fazem com que a história tome vida e as suas personagens o dom da palavra.

 

Textos Narrativos

Os textos narrativos servem para reforçar as imagens naquilo que nelas não se possa ver. Servem também para contar, no inicio de uma história, aquilo que se passou anteriormente e no que irá ficar baseada toda a narração futura; serve, além disso, também para tapar os cortes existentes entre sequências sendo para isso os mais utilizados os textos narrativos de tempo e lugar.

Vejamo-los mais detalhadamente.

Texto de Introdução

Na figura 63 Podereis ver um texto narrativo de introdução, que é aplicado na primeira vinheta da história e que nos dá a conhecer onde se irá passar a futura narração.

Fig 63 - © Editorial Futura / Jesus Blasco

Texto de Reforço

Recorda-se do que lhe disse anteriormente na segunda parte das técnicas de BD sobre o maior ou menor número de vinhetas segundo o tipo de acção? “Um maior número de vinhetas para narrar uma acção, dá-nos um tempo longo”.

Recorda-se, não é verdade?

Pois há casos em que um tempo longo tem de ser contado em menos vinhetas como, por exemplo, a longa caminhada de uma personagem através de um deserto. Não seria correcto representar essa caminhada ao longo de uma página pois resultaria cansativo. Então, aqui teremos de recorrer aos textos narrativos de reforço poupando, assim, imagens.

Duas vinhetas em planos diferentes com um texto que dissesse: “Caminhou varias horas através daquele deserto escaldante e aparentemente sem vida”. Como vê um tempo breve com um texto inteligentemente colocado, transforma-se assim num tempo longo, tão longo quanto a caminhada no deserto.

 

Tempo e Lugar

Quem não viu já alguma vez ao desfolhar um álbum de BD aqueles textos que dizem:

- Dois dias mais tarde.

- Na manhã seguinte.

- Uma hora depois.

Estes são textos de tempo e lugar e sem eles aconteceria que o leitor a um dado momento perderia o fio à meada sem conseguir acompanhar os saltos na narração. Estes textos ligam perfeitamente duas sequências que aparentemente nada tinham a ver uma com a outra.

 

Protagonista Narrador

Estes são os textos do Flash-Back e são, como disse anteriormente, um relato contado por uma das personagens sobre o ocorrido no passado, mais ou menos recente, da sua vida. Nestes casos as imagens das vinhetas serão relatadas pelos textos, ou seja, deve figurar na narração o que se vê na ilustração. 

Acabámos de ver os textos narrativos. Recorde que não deve abusar deles pois as imagens devem falar por si sós. Aplique-os, portanto, somente onde o desenho não consiga transmitir o desejado ou para contar algo que não se possa ver na vinheta, à excepção do protagonista narrador ou Flash-Back.

 

Os Diálogos

Entendemos por diálogos a conversação ou pensamentos das personagens e são normalmente representados dentro de balões, os balões de diálogo.

Esta maneira de “dar voz” às personagens veio-nos, como a BD em geral, dos Estados Unidos da América. Até então, na Europa, utilizavam-se os textos no pé da vinheta e ainda hoje alguns desenhadores o utilizam — é o caso do português Eduardo Teixeira Coelho — ele utilizou esta forma de legendar.

 

Texto em Off

Já o vimos, por acaso, na história anterior, “Revolta na corte”.

Eles são diálogos que representam a voz de uma personagem vinda de fora do quadro da vinheta; portanto, que não está presente na ilustração. Este texto é excelente para ligar duas sequências assim como para criar suspense. São textos em Off também aqueles que vêm do interior de uma casa, por exemplo, e cujos locutores não estão presentes, fisicamente, na vinheta, onde somente se ouve a sua voz.

 

Os Pensamentos

A representação gráfica de um balão de pensamento é algo diferente da de um de diálogo; portanto o guionista deverá indicar no guião técnico quando se trata de um pensamento para que, então, o desenhador o possa representar adequadamente.

 

As Onomatopeias

O dicionário diz-nos a este respeito: Onomatopeia: Palavra formada por harmonia imitativa. Por outras palavras, é a representação gráfica de rumores. Está claro?

Quero deixar presente que as onomatopeias variam de país para país e temos como exemplo uma gargalhada que em português se representa: Ah! Ah! Ah! Em espanhol seria Ja! Ja! Ja!

As onomatopeias estão, portanto, ligadas à gramática de cada país. Dou-vos agora uma pequena lista das onomatopeias mais utilizadas.

 

Textos de Enlace

A função dos textos de enlace é a mesma das sequências e encadeados estudados em precedência, ou seja, o de enlaçar as distintas sequências e vinhetas evitando assim cortes bruscos na narração ao longo da história. 

Existem para o efeito 3 tipos de textos de enlace, que são: Textos narrativos, diálogos e onomatopeias de enlace. Vejamo-los.

 

Narração de Enlace

Pode dizer-se que quase todos os textos narrativos são textos de enlace pois a sua função é a de explicar por palavras as acções que não se vejam nas sequências.

Vejamos um exemplo na figura 64.

Fig 64 - © Editorial Futura / Jayme Cortez

Como poderá ver na terceira vinheta esse texto narrativo enlaça esta acção com a anterior onde uma personagem morre nos braços de Pedro Seringueiro. Sem esse texto narrativo de enlace, essas acções dificilmente estariam ligadas, é como se fossem histórias independentes.

 

Diálogos de Enlace

Os diálogos de enlace também são muito úteis para enlaçar certas sequências causando também uma certa dose de suspense. Uma vinheta onde apareça um primeiro plano de uma personagem que grita CUIDADO!! Enlaça perfeitamente com uma próxima vinheta ou sequência que represente uma avalancha de neve.

Além desse texto de enlace, que é o grito da personagem, enlaçar as duas sequências serve também para criar suspense e para fazer com que as duas vinhetas não possam existir separadas embora sejam acções diferentes.

Os textos em Off dão-nos o mesmo resultado que os diálogos, recorde mais uma vez a história anterior, Revolta na Corte, com a vinheta do primeiro plano do capitão Custer que se enlaça com a seguinte através desse texto em off.

Fig 65 - © Editorial Futura / Jesus Blasco

 

Onomatopeias de Enlace

Em relação a este ponto creio que pouco mais há a dizer. A figura 66 mostra-nos bem como duas vinhetas ou acções podem ser enlaçadas através das onomatopeias de enlace.

Fig 66 - © Le Lombard / Rosinski

Acabámos de ver os tipos de texto com que tem de contar o guionista. Da próxima vez que você ler uma história de banda desenhada veja as formas de enlaçar as sequências e as acções através dos textos e das sequências e encadeados; eles são verdadeiramente imprescindíveis pois fazem com que a história tenha a continuidade que se requer, sem fossos onde o leitor possa cair.

A BD é uma arte, uma bonita arte que pouco a pouco nos vamos dando conta que sem algumas regras seria impossível fazer uma boa obra.

 

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