Solitários


ENVELHECENDO UM BONSAI
A idade que aparenta um Bonsai pode ser uma ilusão, existem técnicas de envelhecimento aparente que faz uma árvore de 20 anos aparentar 100. Como já vimos na aramação é possível educar uma árvore jovem a que se pareça com uma solitária e velha "senhora" numa qualquer floresta. É possível molda-la e conferir-lhe estética e beleza, mas existem outras técnicas de envelhecimento que, muitas vezes, são utilizadas para esconder defeitos mas também para cumprir um projeto a que aquela árvore em especial se presta, refiro-me aos JIN, SHARI, SABAMIKI e URO. ou seja, escarificações que metem a nu a madeira sem que com isso a árvore venha a sofrer ou deixe de crescer saudável.
Embora existam Bonsai cuja idade se perde no tempo e se estima que tenham umas centenas de anos, com boa estrutura radicular, troncos maciços e pernadas bem definidas, isso não é, só por si, sinónimo da idade avançada que aparentam, muita dessa aparência pode ser dada pelo bonsaísta. E é disso que nos propomos falar nesta parte sobre envelhecimento.

Como foi visto anteriormente em "Poda" a aplicação de arames pode dar à árvore um aspeto maduro, dobrando os seus troncos para baixo. Também o desenvolvimento das raízes lhe podem conferir maturidade, e a poda fazer com que a coroa da árvore seja imponente, bem desenvolvida, típico das árvores velhas. Na realidade estas são técnicas obrigatórias no cultivo do Bonsai mas para lhe dar o verdadeiro efeito de envelhecimento não há nada como as escarificações, os tão conhecidos… JIN, SHARI, SABAMIKI e URO.

Entre os truques usados para envelhecer um bonsai, o destaque vai para a técnica da madeira inoperante ou escarificada. Utiliza-se para dar a impressão de uma árvore que vive em alta montanha, desprotegida e isolada, fustigada pelos elementos da natureza; relâmpagos e tempestades, ou que tenha sofrido algum outro trauma há muito tempo.
Na natureza só as árvores muito velhas mostram esses "traumas" o que no Bonsai seria coisa impossível de acontecerem devido à proteção de que gozam ao nosso cuidado e longe dos caprichos da natureza agreste.
Os Jin e os Shari são vistos geralmente nas coníferas, pinheiros e zimbros em plena natureza, altas montanhas etc, já o Sabamiki e o Uro podemos vê-los nas oliveiras e outras árvores de folha.
Utilizamos estes métodos frequentemente para esconder um defeito em árvores colhidas na natureza ou compradas em centros de jardinagem as quais deveremos transformar em Bonsai e por conseguinte, deveremos cortar, partir e descascar uma ou outra pernada, ou o próprio tronco, que seja menos estética ou que não se enquadre ao projeto que temos pensado fazer.
As ferramentas utilizadas para estes trabalhos vão desde lâminas, formões, limas, brocas, alicates e máquinas elétricas com pontas abrasivas.
Já vimos anteriormente que o Jin é o descasque de uma pernada, que pode ter sido em parte removida ou simplesmente morreu e decidimos mante-la mas removendo a casca.
O Shari é a remoção em parte da casca do tronco para dar um aspeto de um trauma em alta montanha, uma ferida a que a árvore sobreviveu.
No Sabamiki podemos ver um tronco oco, como na primeira fotografia abaixo e que as oliveiras se prestam muito bem a esta técnica.
O Uro, foto2, por sua vez é um buraco no tronco ou numa pernada. Acontece na natureza quando uma pernada ou ramo cai e a madeira exposta apodrece e se desfaz, deixando um buraco que chega ao núcleo. Em torno a esse Uro a casca vai continuar a crescer, suavizando a ferida. Podemos simular um Uro utilizando uma broca para perfurar o local onde cortámos uma pernada.



O FALSO SHARI
Outro processo para criar um SHARI, cujo efeito se pode ver nas duas fotos mais abaixo, é o TANUKI, a que eu chamo "falso Shari" e consiste em utilizar madeira morta em simbiose com uma árvore muito jovem, neste caso o zimbro de agulhas.
Simples e com bons resultados! Com o tempo tudo se compõe e o projeto ganhará naturalidade.
Como se pode ver abaixo o troco da árvore somente tem cerca de um centímetro de espessura e está agarrada a um galho ou raiz que, neste caso, atua como sendo o tronco verdadeiro onde foi efetuado um Shari.
Para realizar este trabalho deveremos retirar a casca da árvore no ponto onde esta irá ficar em contacto com a madeira morta e prendemos a árvore a essa madeira com pequenos pregos de latão (não criam oxidação, não serão visíveis). Ainda pode ser efetuada uma "cama" para o tronco vivo, escavando ligeiramente a madeira morta e embutindo aí a árvore para lhe dar um efeito mais real.

      

A melhor madeira morta para estes projetos é a madeira flutuante (Driftwood) que é arrastada para a costa numa praia, lago ou rio pela ação de ventos, marés ou ondas. Esta madeira já tem a maturidade certa para vir a fazer parte do projeto. A madeira morta na base que ficará enterrada no substrato, junto às raízes, pode ser tratada com uma calda de cera quente para evitar o apodrecimento devido à humidade constante.

    

☠  TRATAMENTO DO JIN E SHARI
A madeira morta tende a criar fungos e deverá ser tratada para se manter branca e não apodrecer. Esse é um dado a que não devemos fugir. Também já aqui foi dito que é utilizada a calda sulfocáustica (cal e enxofre) para o efeito. Esta operação deve ser realizada anualmente de preferência no Outono ou umas semanas antes de uma exposição onde o Bonsai irá concorrer. Para esse tratamento existe no mercado um líquido para Jin, mas podemos fazer a versão caseira da seguinte forma:

Composição:
- 125 gr. de enxofre.
- 75 gr. de cal viva.
- 1000 ml de água.

Preparação:
- Juntar a cal e a água, mexendo sempre, até ferver. Utilizar uma lata descartável como recipiente.
- Juntar o enxofre, deixar ferver durante 15 ou 20 min até adquirir uma cor âmbar.
- Deixar arrefecer e assentar a cal em suspensão.
- Filtrar 2 ou 3 vezes para obter um líquido límpido de cor avermelhada que se guarda em frasco de vidro com tampa de plástico.
- Para aplicar este preparado na madeira morta, utilize um pincel macio.

Cuidados a ter:
1º Este produto é um veneno.
2º Manter longe de crianças.
3º Não fazer o preparado dentro de casa devido ao cheiro.
4º Não aplicar sobre as folhas, substrato ou na casca da árvore.
5º Guardar em local escuro.
6º Retire, separe, só a quantidade que irá utilizar e não guarde o líquido usado que sobre.
7º Não lançe as sobras na rede de esgoto ou na terra/natureza. Absorva com papel e coloque no lixo genérico.