CRIAÇÃO


Penso que já tenha visto como cuidar um bonsai, penso, também, que não encontrou nada de complicado, afinal é acessível e qualquer um que tenha gosto pela jardinagem. Mas.... quanto custa um Bonsai? Não me refiro a esses importados da Tailândia ou Taiwan que se vendem nas floristas de bairro e hipermercados (essa é outra história) digo Bonsai a sério! Sim, centenas, senão milhares de Euros.
A partir de algumas (boas) centenas de Euros já pode ter uma árvore com uns aninhos respeitáveis e uma forma já trabalhada... verdadeiros bonsai, prontos para nos acompanhar pela vida.
Já agora e a título de curiosidade, o bonsai considerado o mais caro no mundo está avaliado em mais de Um Milhão de Euros. Trata-se de um Pinheiro-branco-japonês, Goyo-matsu, Pinus pentaphylla - parviflora, com cerca de 450 anos de idade e batizado por Higurashi, “Existência”. Encontra-se exposto no Museu de Arte do Bonsai da vila de Omiya, Saitama, a poucos quilómetros de Tóquio.

REGRAS BÁSICAS DA ESCOLA JAPONESA
Foram criados uma série de conceitos que devem ser seguidos para conseguir a perfeição estética.
Assim, regra geral...
1º   - Deve existir conicidade do tronco da base ao ápice.
2º  - O conjunto dos ramos e folhas devem ter um perfil triangular. Esta forma triangular também se aplica nos grupos de árvores (florestas) em que ao centro ficam as mais altas.
3º  - Os ramos devem estar sempre na parte exterior das curvas do tronco e de forma alternada, nunca dois troncos a nascerem à mesma altura, ficando os mais grossos na parte inferior. A distancia entre eles diminui à medida que se encontrem numa posição mais elevado no tronco. Os ramos nunca se deverão cruzar.
4º  - Se o ângulo da primeira pernada aponta para baixo, então as restantes devem seguir a mesma inclinação. A mesma regra se aplica para árvores com as pernadas na horizontal ou das que apontam para cima.
5º   - O ápice da árvore deve ser achatado.
6º   - Deve ser reduzida a longitude das pernadas à medida que se sobe no tronco, para que o perfil siga uma silhueta triangular.
7º   - O ângulo das pernadas, quando pendem em direção ao solo, deve ser de aproximadamente 45 graus.
8º   - Sendo possível a primeira pernada deve nascer a ⅓ da altura total do tronco.
9º   - O Nebari são raízes visíveis e radiais junto ao tronco e que devem obrigatoriamente existir.
10º  - A proporção ideal entre a espessura na base do tronco e a altura da árvore deve ser à razão de 1/6. Por exemplo: num tronco com 3 cm de diâmetro junto à base, a altura da árvore não deve ser inferior a 18 cm. Esta regra não se aplica a uma árvore com tronco muito grosso, como o caso de alguns pinheiros ou zimbros.
11º 十一 - Na largura total da árvore, os ramos nos dois lados do tronco, direita e esquerda, deve ser a metade ou inferior à altura total da árvore. Esta regra não se aplica a uma árvore de tronco muito grosso, como o caso de pinheiros.

Os Bonsai dividem-se em duas categorias. Os tropicais, Indoor, que nas nossas latitudes durante o Inverno devem estar em casa ou numa estufa, e os Outdoor, que ficam no exterior todo o ano. Estes os preferidos por serem menos sensíveis embora com um crescimento mais lento.
Consulte aqui a Lista de Espécies ao cultivo Bonsai, ordenada alfabéticamente pelo nome Botânico, ou entre no menu 'Compêndio' para consulta mais detalhada a cada espécie.

COMO PRODUZIR UM BONSAI
Os Bonsai não nascem por acaso na natureza, eles são feitos pelo homem. Qualquer um de nós pode fazer um bonsai, existem varias maneiras de os conseguir, são as utilizadas para propagar árvores, tais como sementeira, estaquia e alporquia (ver Propagação) mas estas são técnicas muito demoradas, só passados uns 10 anos é que poderíamos ver os primeiros resultados satisfatórios, existe uma outra forma bem mais rápida que é o material de viveiro.
Podem-se comprar em centros de jardinagem árvores em vaso, criadas para transplantar no nosso jardim e conseguir através da poda e aplicação de arame, na Primavera, dar-lhe a forma de árvore adulta. Esse projeto, pré-bonsai, será então replantado num grande vaso para que se possa desenvolver mais rapidamente sem nunca transcurar os cuidados básicos a ter com um Bonsai. Com o tempo ela chegará a ser um bonito exemplar, único, com aspeto de árvore antiga, só nessa altura é que receberá o vaso como prémio. Nunca tenha pressa, a natureza necessita do seu tempo.

Na sequência fotográfica abaixo pode ver este processo de criação através de uma picea para jardim, mas pode faze-lo igualmente com qualquer tipo de árvore, tais como oliveiras, romanzeiras, pinheiros, buxus ou abetos.






DESENVOLVENDO UM BOM NEBARI
Nebari, palavra japonesa, é o nome dado às raízes visíveis junto ao tronco. Assim, o Nebari deve ser radial ao tronco e bem distribuído e cujos “braços” não devem ser em número inferior a 5, sendo as folhosas as mais indicadas para ter estes nebari possantes mas também os pinheiros devem obedecer a esta regra. Não existindo nebari, a planta é só uma vara espetada no solo e não pode ser denominado Bonsai. Um bom bonsai com um mau Nebari, simplesmente não existe! Exceções são as árvores em estilo Literati e Inclinado mas também os Zimbros pois pela sua natureza, estes não desenvolvem grandes raízes capazes de criar Nebari interessantes.

  

Em termos gerais o Bonsai deve ser o conjunto árvore/vaso/projeto, sendo o projeto a estética da árvore, a forma, o nebari, a posição das pernadas, o tronco etc. Não se deve chamar Bonsai ou coloca-lo numa bandeja/vaso bonsai, uma planta que não tenha ganho esse estatuto.
Nem sempre ou quase nunca a planta por si só gera bons Nebari, isso é trabalho que o bonsaísta deve fazer. Existem diversas técnicas. Vejamos:
 ✭ Logo abaixo do nível do solo, imagem A, abaixo, podemos fazer uma série de furos na casca, espaçados entre si e trata-los com pó de enraizamento. Essa intervenção vem então coberta com esfagno (esfanho) ou musgo, para manter a humidade. Certamente nascerão aí raízes que depois deverão ser encaminhadas radialmente com um dos próximos processos das imagens B ou C.
 ✭ Em Bonsai, devido à forma do vaso/bandeja, as raízes devem crescer na horizontal, assim existem técnicas como em B onde se coloca a planta sobre, por exemplo, uma madeira, se dispõem as raízes como nos convenha, presas com pregos ou uma espécie de agrafos. Planta-se o conjunto no solo ou vaso profundo para deixar as raízes engrossar. Outro processo idêntico é como em C em que se coloca uma pedra no centro, logo abaixo do tronco, para não deixar as raízes crescerem na vertical.


Outro processo é a imagem abaixo, retirada do livro do Sr. John Yoshio Naka. Podemos ver aqui uma técnica bem estranha que é chamada de “Encostia”, ou seja, por encosto, mas que no fundo é um tipo de enxertia.
Como se precessa?
 ✭ No tronco, junto ao solo, são abertos sulcos com 2 ou 3 cm de comprimento onde se encaixam jovens plantas da mesma espécie. Estas jovens plantas são assim ligadas à planta maior de forma a ficarem bem apertadas e espera-se que a casca se funda com a casca da árvore maior. Um ou dois anos depois cortam-se as copas das pequenas plantas onde as suas raízes passam a alimentar a árvore maior. Obtém-se assim dos pequenos troncos um bom Nebari. Se alguma das plantas não vingar, repete-se o processo com a planta que não pegou.
NOTA:   Na imagem vemos as jovens plantas nos pequenos vasos. Isso acontece quando a “Encostia” se realiza a um nível superior ao nível do solo, quando o façamos ao nível do solo, prescindimos dos pequenos vasos e colocamos as raízes das jovens árvores diretamente no substrato.

      



ATENÇÃO ÀS IMITAÇÕES E ENGODOS
Falei anteriormente quase por acaso nos bonsai importados da Tailândia e vou explicar porquê. Não se deve comprar gato por lebre, não se deixe enganar, mas não chame Bonsai a algo que é só uma planta.
Os “bonsai” que todos estamos habituados a ver à venda nos mais diversos sítios não especializados, são geralmente árvores de crescimento rápido: Ulmeiros chineses, Carmonas, Ficus, Sageretias... na sua maioria são produzidos na Tailândia ou em Taiwan em grande escala e não passam de plantas jovens, tropicais e subtropicais que, geralmente, são indoor para as nossas latitudes, às quais lhe é dada essa forma apressada para vender a quem não conhece. É triste ver tanto desconhecimento e presunção já que tenho assistido a discussões de pessoas mal informadas e sem conhecimento que elevam o Ginseng a bonsai. Isso não são Bonsais, segundo a escola japonesa. Mas, que adianta argumentar com quem tem tanta certeza mas nada sabe?

ATENÇÃO: tenha em mente a imagem abaixo. Não compre isto como sendo um Bonsai, são um engano, apesar de virem acompanhados de uma etiqueta que diga "Bonsai, 10 anos", é falso! Um bonsai é muito mais que isto, “...são como comparar o desenho de uma criança com um quadro de Rembrandt”.

  

Resumindo:
1º Além de serem plantas muito sensíveis às mudanças de temperatura, elas querem condições que não temos em nossas casas e, mais cedo ou mais tarde... morrerão, até mesmo pela falta de alimento a que estão habituadas.
2º Não são verdadeiros Bonsai mas sim imitações baratas, Hachiue, plantas jovens num vaso com aspeto exótico. Em condições ideais (lá de onde vieram) poderiam tornar-se bonsais, mas para isso também não poderão estar confinadas a um vaso pequeno até conseguirem adquirir o estatuto que se lhes atribui. Bonsai vai muito para além do que elas mostram.
3º Induzem em erro quem nunca viu um verdadeiro bonsai ou se deu ao trabalho de folhear as camadas do conhecimento e se crê que aquela plantinha tem já muitos anos pela forma enganadora do tronco retorcido, no entanto é só "um galho espetado na terra".
Repare que muitos deles, no interior da sua copa, têm o tronco decepado, ora, o tronco de um Bonsai deve ser cónico desde a base até à copa, o que não acontece nestes casos, mas também a falta de raízes expostas, o Nebari. Logo aqui temos dois erros grosseiros que lhes retiram o estatuto de Bonsai.
Veja abaixo esse mau exemplo do que muitos chamam bonsai mas que na verdade é só uma vulgar planta de ficus, jovem e mal preparada.