Substrato


Muito se fala sobre a composição dos solos para Bonsai. De forma exagerada pode-se dizer que cada bonsaísta experiente tem suas próprias "receitas" de terras. Fatores como humidade ambiente e temperatura da região do cultivo condicionam a composição do solo a utilizar, bem como a granulometria dos componentes, mas também a saúde e a idade do bonsai são fatores a ter em conta.
Os solos mais aplicados e de eficácia reconhecida desde muito tempo, são os japoneses: Akadama, Akatsuchi e Kanuma. Estas são basicamente argilas vulcânicas. Hoje, por cá, já se encontram à venda em centros Bonsai. Informe-se para o seu caso específico pois uns são mais ácidos que outros. existem no entanto outras misturas de solos que podemos preparar e que nos convém saber pois substituem com bons resultados os solos japoneses.
Para isto existem seis regras que eu utilizo e às quais sou fiel; é a mistura de argila, areia ou areão e turfa nas proporções que indicarei abaixo. Uma das vantagens dessas misturas é de podemos ajusta-las consoante a árvore, a região e o clima onde se vive. Por exemplo, vivendo numa região com elevado grau de precipitação, podemos reduzir a quantidade de turfa e aumentar a de areia, já numa região quente e seca, o ideal é que se proceda de forma contrária para prolongar a humidade durante mais tempo.
Esse é um processo a que o bonsaísta não fica indiferente e só ele sabe o que melhor se adapta à sua realidade.

OS COMPONENTES DE UM BOM SUBSTRATO
 ✔ Argila – Grande concentração de nutrientes e pouca acidez. É um aglutinante dos diversos componentes do substrato.
 ✔ Turfa/Húmus – Como uma esponja, retém a humidade suficiente para alimentar o bonsai. A turfa e o húmus são solos orgânicos que, para alem da retenção de nutrientes e água, são onde se desenvolvem as bactérias boas e os fungos benéficos que vivem em simbiose com a planta.
 ✔ Areia/Areão – Proporciona aeração, oxigenação, da massa radicular e ajuda na drenagem. A granulometria não deve ser superior a 2mm. O areão que se vende para a aquariofilia é uma opção.

AS MINHAS MISTURAS DE SOLOS
Substrato base: 1 parte de argila, 2 de turfa, 2 de areia.
Substrato ligeiro: 1 parte de turfa, 1 parte de areão.
Substrato com boa drenagem: 1 parte de argila, 1 de turfa, 3 de areia.
Substrato não calcário: 1 parte de argila, 3 de turfa*, 1 de areia.
  * - O aumento da quantidade de Turfa torna o solo mais ácido.

Ou ainda um substrato específico para cada espécie de árvore, dividindo essas espécies em 3 famílias:
Coníferas: 50% de argila e 50 % de areia. Dependendo da idade, podem chegar a utilizar 100% de argila.
Folhosas: 60% de argila, 30% de areia, 10% de turfa.
Fruto e Flor: 50% de argila, 30% de areia, 20% de turfa.

Os componentes acima descritos devem ser bem misturados e isentos de sementes, vermes, ovos de caracol, lesma etc. que possam danificar as raízes recém podadas na altura do transplante. Como segurança, e em caso de dúvida, aconselho espalhar a terra que se vai utilizar, num tabuleiro metálico e levar ao forno de cozinha a 220 graus por uns 10 minutos. A mistura de terra, no momento do transplante do Bonsai, deve ser utilizada seca e solta, sem torrões. A turfa pode ser substituída por húmus.

 ✔  Coco Peat - Em alternativa à turfa e ao húmus, existe o Coco Peat, um produto também ele orgânico que se extrai da casca fibrosa do coco. As fibras de coco têm alta capacidade de retenção de ar e água, ideais para o cultivo. Sendo visivelmente similar à turfa, tem por sua vez um p.H. neutro que varia entre 6,0 – 6,8.
Aumentar a quantidade de turfa no substrato torna-o mais ácido, mas ao adicionando Coco Peat, este comporta-se como um corretivo do solo. É portanto o componente orgânico perfeito para incorporar nas misturas, pois tem excelentes condições para o desenvolvimento da vida bacteriana saudável do solo sem acidificar o substrato.



A oxigenação nas raízes é importante, no entanto não devem existir bolsas de ar. A importância da mistura de solos serve também para acelerar o desenvolvimento da planta, daí a necessidade de um tipo de solo para cada espécie e necessidade da árvore em questão. Para um crescimento mais rápido ou uma árvore doente, a granulosidade do solo deve ser maior, como por exemplo o Substrato Ligeiro comentado acima. Aumentando a quantidade de areão promovemos a drenagem e a oxigenação. O contrário também se aplica, usamos granulosidade mais fina e mais argila para um crescimento mais lento e em árvores mais velhas ou segundo a espécie, por exemplo.

Aquando a preparação da mistura de terra pode-se, segundo os conselhos de bonsaístas famosos, juntar farinha de osso, farinha de chifre, farinha de peixe ou de semente de algodoeiro na quantidade de uma colher de sopa para cada 4 litros da mistura de solo.
Essa mistura é um alimento natural que pode ser aplicado no momento do reenvaso pois não queimam as raízes recém podadas, ao contrário dos fertilizantes minerais.

Para os fans do Yamadori pode existir a tentação de recoletar e utilizar terra para o replante da zona onde se colheu a árvore, mas essa opção nem sempre é a melhor porque as necessidades da planta mudam quando transferidas da natureza para um vaso, no entanto, a terra natural que se encontra no “bolo” de raízes essa, dentro do possível e se a planta for saudável, deve ser mantida para que se adapte mais rapidamente à nova condição.

CARACTERÍSTICAS DE UM BOM SOLO
- Boa drenagem: O solo deve ter a capacidade de drenar imediatamente o excesso de água. Solos com má drenagem, retêm muita água, as raízes não são oxigenadas, ficam sujeitas a uma acumulação de sais e faz com que apodreçam, matando a árvore.
- Retenção de humidade: O solo precisa ser capaz de reter somente a quantidade suficiente de água para fornecer humidade ao Bonsai entre cada rega. Tudo o que for a mais será prejudicial, por isso deverá haver uma simbiose perfeita entre a parte drenante e o componente húmus ou turfa.
- Boa aeração: As partículas utilizadas numa mistura de solo de Bonsai devem ser de tamanho suficiente para permitir a formação de pequenas bolsas de ar entre elas. Além da necessidade de oxigénio para as raízes, também é importante permitir a ocorrência das bactérias boas de modo que o processamento de alimentos acontecerá antes de serem absorvidos pelas raízes capilares.

BACTÉRIAS BOAS:
Existem bactérias que desenvolvem uma relação benéfica com a planta. Por outras palavras, tanto as bactérias, como a planta, beneficiam da relação e não existe prejuízo para nenhuma delas.
Neste tipo de relação, as plantas recebem mais água e nutrientes do que obteriam por si só. Isto ocorre porque as bactérias são capazes de encontrar bolsas de água e nutrientes melhor do que as raízes da planta. Em troca a planta oferece-lhes os açúcares e as vitaminas que elas não conseguiriam obter por si próprias. Para que se dê esta relação raiz/bactéria boa, são as próprias raízes que libertam um químico que atrai estas bactérias, convidando-as a fazer parte do processo.

FUNGOS BENÉFICOS:
Nos pinheiros, quando se retira o vaso, é comum ver nas raízes um fungo branco que, em princípio, poderá assustar, mas que na realidade é benéfico à planta e nos garante uma boa saúde.
Os Fungos associados às raízes das plantas garantem uma melhor absorção dos nutrientes do solo.
A saúde e alimentação da árvore com fertilizantes, principalmente os fosfatados, pode ser melhorada também com a ajuda de culturas vinculadas à micorriza, uma associação benéfica e natural entre fungos específicos do solo e as raízes das plantas. Com esse mecanismo biológico, os filamentos dos fungos passam a funcionar como sistema radicular adicional da planta. Isso permite a utilização de maior volume do solo para a absorção de nutrientes pela cultura, principalmente do fósforo.


OS CONHECIDOS SOLOS JAPONESES
Caso queira optar por um solo com garantias dadas, existem os solos japoneses que nunca nos deixarão ficar mal. Estes são solos testados e com garantias dadas, no entanto o seu preço, devido à importação, é superior ao substrato por nós preparado. É opção do bonsaísta optar por um ou outro, no entanto deve conhece-los para poder decidir.

Akadama - “Bola Vermelha”, este é um Solo Universal. É uma argila vulcânica e possui boa granulometria e capacidade de retenção. Tem boa drenagem do excedente de água, devido às suas características físicas e não forma barro. É neutro a nível de p.H. (6,5 - 6,9) e usado para todas as espécies folhosas.
Pode ser usado puro, tal como é comprado, ou podemos adicionar um pouco de turfa, que garanta maior humidade durante os nossos verões quentes ou ainda, aumentar a drenagem com Kyriuzuna ou pedra-pomes para as coníferas.

Kanuma - Solo com p.H. ácido (5,5). O nome deriva da região de onde provém. Atenção utilizar só em espécies que requeiram um solo ácido, tal como as Azáleas. Pode ser utilizado noutras espécies uma pequena percentagem de Kanuma juntamente à Akadama para equilibrar a alcalinidade das águas de certas regiões do país, mas nunca acima de 10%.

Pedra-pomes - Pomice ou Pedra-lávica. Pedra vulcânica, porosa e leve que é triturada e utilizada pela sua ação de drenagem mas também de absorção de água. Esta pedra substitui com vantagem a areia ou gravilha vulcânica na mistura do substrato.

Kiryuzuna - Solo vulcânico bastante duro e que não retém a água. Com p.H. neutro, entre 6,5 e 6,8, é usado para misturar a outros solos e melhorar a sua drenagem, principalmente nas coníferas que não gostam de terrenos alagados.

Keto - Este produto é uma mistura negra e pegajosa composto por pó de Akadama e pó de turfa humedecidos e amassados até terem uma textura facilmente moldável. É utilizado como uma “plasticina ou cimento” perfeito para uma variedade de projetos de bonsai, incluindo plantações de paisagens e para árvores plantadas em lajes de ardósia, onde o solo seria facilmente arrastado pelas regas.
O Keto mantém o solo no lugar e ajuda a prender as árvores às rochas no estilo plantado sobre a rocha, (Ishizuki). Não se arrasta facilmente quando regado, o musgo cresce sobre ele e as raízes desenvolvem-se com facilidade.