Luthier, para os mais desinformados, é um construtor e reparador de instrumentos de cordas.
A palavra Luthier, do francês Luth, que significa Alaúde, era portanto o profissional especializado na construção e no reparo de instrumentos de cordas com caixa de ressonância, tais como alaúdes, violinos, violas, violoncelos, contrabaixos, guitarras, tiorbas, bandolins, cítaras etc.
Em português pode-se utilizar a expressão "Violeiro".
Na atualidade a palavra foi generalizada aos construtores e reparadores dos demais instrumentos, tais como os de sopro e percussão.

A importância da madeira na construção de um instrumento.


É errado pensar que qualquer madeira serve para construir um bom instrumento de cordas. Tomando as guitarras como exemplo podemos, e devemos, ter em conta alguns fatores muito importantes: a escolha da madeira, e um luthier sabe disso. Na qualidade da madeira não interfere somente o preço final do instrumento mas também, e sobretudo, o som.
As madeiras para o braço, para o fundo e ilhargas, para a escala, os reforços internos e para o tampo são pois de extrema importância na altura de as escolher, obviamente sempre que se queira fabricar a própria guitarra.
AQUI, se se quiser aventurar, pode obter alguns planos de guitarras.
Em que interfere pois a qualidade ou tipo de madeira para cada uma das partes do instrumento?

De um modo geral as madeiras de uma qualidade standard indicadas para violas, guitarras, cavaquinhos e cordofones em geral são:
Mogno para o fundo e ilhargas,
Pinho do Oregon para o tampo,
Sapelli para o braço,
Ébano para a escala e também para o cavalete,
Pinheiro-silvestre para as cintas e travessas internas. 

- Tudo somado temos de saber que necessitamos para os fundos e ilhargas uma madeira rija, com densidade que possa refletir as vibrações em todas as direções e a sua transmissão ao tampo sem as absorver.
- Para os tampos se necessita uma madeira “branda”, que receba as vibrações vindas de todas as direções, principalmente das cordas e deixe passar o som para o exterior. O tampo atua da mesma forma que a pele de um tambor.
- No braço a madeira deve ser pouco higrométrica para não empenar, não muito pesada mas resistente para aguentar a tensão das cordas; deve ter valores relativamente elevados de frequência fundamental.
Assim, à continuação deixo uma lista das mais representativas.

Lista de algumas madeiras mais importantes.

Tampos:

PINHO: Madeira de baixa densidade, de resposta rápida, médio sustain, timbre agudo, muito utilizado nos tampos de guitarras acústicas, cavaquinhos, violas, etc.
CEDRO CANADIANO: Madeira de baixa densidade, de fácil manuseio, com bom sustain, muito estável, com timbre mais grave e aveludado é utilizada na construção de tampo.
CEDRO VERMELHO: Durante décadas esta era a madeira que vinha sendo utilizada para o tampo de violas clássicas, tornando-se popular também entre entusiastas por cordas de aço. O cedro é uma madeira leve, conhecida por produzir tonalidades agradáveis e suaves, tornando uma madeira especial aos dedilhados.
ENGLEMAN ESPRUCE: Outra madeira norte-americana, tem muita das características tonais do German Spruce (uma espécie europeia de Espruce). Devido a sua rigidez e peso diferente do Stitka spruce, o tampo feito pelo Engleman produz um som mais suave. Esta madeira é uma boa opção para instrumentos clássicos.
SITKA ESPRUCE: Esta madeira norte-americana é ideal para o tampo. O Espruce é a madeira mais utilizada hoje em dia para a fabricação do tampo, e o Sitka é a espécie mais comumente utilizada. Sua alta rigidez combinada com as características macias e leves, faz com que soe naturalmente com uma alta velocidade de som. Mesmo sendo tocado com força, essa madeira consegue um som claro. Isso faz do Sitka uma excelente escolha de madeira para o tampo. Por outro lado, a falta de uma tonalidade mais complexa faz com que Sitka soe um pouco fino aos leves toques, mas claro que tudo depende do desenho do instrumento e das outras madeiras envolvidas.


Fundos e ilhargas:

MARUPA: Madeira de Media densidade, com bom sustain, boa estabilidade, timbre agudo, boa resistência mecânica, muito utilizada na fabricação de corpos de guitarra e reforços internos.
JACARANDA / MIMOSA: Madeira de alta densidade, com muito sustain, alta reflexibilidade, muito estável, timbre grave e estalado, é sem dúvida a madeira mais cobiçada em instrumentos musicais, muito utilizada em fundo e ilhargas de violas, além de escalas, e em raros casos corpo de guitarras e baixos elétricos.
TÍLIA: Madeira de baixa densidade, muito leve, estável, de timbre médio, muito utilizada na construção de corpos de guitarras e baixos.
AMIEIRO: Madeira de baixa densidade é muito utilizada na construção de corpos de guitarras sólidas, elétricas, tem como característica sonora um som mais aveludado com graves bastante profundos. Possui timbre caracteristicamente mais agudo, alta velocidade de propagação do som e bom sustain.
MOGNO: Madeira de alta densidade. Existe uma variedade bem grande de mogno e muitas vezes são muito bons para fazer violas. Geralmente mais usado no fundo e ilhargas. Muitas violas Gibson estão a usar mogno das Honduras, e claro que as diferentes espécimes de mogno tem texturas e influências diferentes. Mas de forma geral, para o tampo, ele tem um forte punchy produzindo bons sustenidos e uma velocidade de som relativamente lenta. Para o fundo e nas laterais, o mogno tem uma velocidade relativamente alta de som, tendendo a enfatizar os graves e agudos. Boa para fabricar braços. Densidade: 648,9 kg/ m³.
CEDRO: Madeira de baixa densidade, de fácil manuseio, com bom sustain, muito estável, com timbre mais grave e aveludado é utilizada na construção de corpos e braços de guitarra e baixo, reforço interno de viola, além de fundos e ilhargas.
CEDRO-ROSA: Madeira de peso médio-leve, coloração castanho-claro-rosado, de textura fina e suave ao toque, usada na construção de corpo maciço ou como base para top em outra madeira. Em alguns caso é usada na construção de braços, principalmente em acústicos. Densidade: 485 kg/ m³.
IMBUIA: Madeira moderadamente pesada, coloração variando de pardo-amarelado ao pardo-acastanhado escuro. Por suas características é utilizada em top para corpo de guitarra e baixo, além de proporcionar um excelente visual, permite equilibrar o instrumento quando usada com madeiras mais leves. Em acústicos, é utilizada em laterais, fundo e cavaletes. Densidade: 875 kg/ m³.
MAPLE: Esta madeira vem sendo utilizada à centenas de anos e provou-se ser uma excelente escolha principalmente para instrumentos da família do violino ou bandolins. Há muitas espécies disponíveis e que crescem em muitas regiões do mundo. Mas o Maple também é uma boa opção para a viola devido à sua tonalidade com um toque brilhante e para guitarra pela sua notável projeção.
PAU SANTO: Para as melhores guitarras utilizam-se em geral ou Pau Santo do Amazonas, Pau de Rosa (Pau Santo da Índia ocidental) ou o Pau Santo do Madagáscar. Embora o Pau Santo do Amazonas seja uma madeira muito adequada e bonita, seria difícil de provar que tenha alguma vantagem real em termos sonoros, relativamente as outras duas espécies mencionadas . Este tipo de madeiras utilizam-se sobre tudo por causa da sua elevada densidade e também por causa do seu aspeto visual sedutor, sendo a sua utilização no instrumento, um luxo para o proprietário. O seu preço assemelhar-se ao preço do ouro.



Braços:

MARFIM: Madeira pesada de cor branco-palha-amarelado, usada na confeção de braços inteiros ou laminados e em escala onde se deseja uma aparência "vintage" (estilo Fender). Em corpos sólidos pode ser usado como top sobre outra base. Em instrumentos acústicos pode ser utilizada em braços, fundos, ilhargas assim como filetes decorativos. Densidade: 795 kg/ m³.
ÁCER / BORDO: Madeira de alta densidade, com bom sustain, muito estável, com timbre agudo, e grande resistência mecânica, muito utilizada na fabricação de braços de guitarra. Por vezes também utilizada, devido ao seu desenho.
MOGNO: Madeira de alta densidade. Boa para fabricar braços. Densidade: 648,9 kg/ m³.


Escalas:

ÉBANO: Madeira de altíssima densidade, muito sustain, alta reflexibilidade, muito estável, timbre agudo, é a madeira mais cobiçada para escalas de instrumentos devido a sua dureza e alta resistência a empenamentos.
IPÊ: Madeira muito pesada e dura ao corte de cor castanho, comumente usada na fabricação de escala, cavaletes e braços laminados, neste último caso adicionando maior resistência ao braço. Considerado pelo instituto soundwood o melhor substituto para o ébano. Densidade: 1100 Kg/m³.
PAU-FERRO: Conhecida também como Jacarandá Boliviano. Madeira de cor avermelhada com forte tom de castanho e extremamente dura e pesada. Comumente usada na construção de escalas e laterais e fundo em instrumentos acústicos. Densidade: 1120 Kg/m³.


É claro que a lista continua, pois hoje em dia temos uma grande variedade de madeiras exóticas para cordofones, vamos listar mais algumas para violas e guitarras normalmente utilizadas, muitas delas com aparência muito bonitas e que, com combinação de veios, fazem padrões que embelezam os instrumentos:
MACASSAR EBONY: Ótima madeira para o fundo, ilhargas e também para o braço. Uma madeira estável, dura e densa. Uma madeira de aparência escura e atraente.
ACÁCIA NEGRA: Conhecida também como Blackwood australiano, ela é uma alternativa mais barata do que o Koa (que também é uma acácia). Embora seja muito mais conhecida nos EUA e Austrália.
PADAUK: Tonalidades fortes e brilhantes, boa para o fundo e ilhargas.
LANCEWOOD: Esta é uma madeira relativamente recente. É uma madeira densa com uma sonoridade alta.
PAU BRASIL: Possui um sustain constante, ataque moderado com uma boa massa sonora final, essa madeira é melhor para palhetadas e não tão boa para o dedilhado.


Espaçamento Entre Trastos e Compensação.

Algo de extrema importância é a construção da escala, dela depende a afinação do instrumento. Já vimos as madeiras empregues, mas que dizer dos trastos? Como calcular o tamanho de cada um? Simples; é matemática!

Este artigo não sei quem o escreveu, mas certamente se o fez foi para nos ensinar algo de novo. Limito-me a passar palavra.
O espaçamento entre os trastos da escala é um problema interessante que surge aquando da construção da guitarra. Os trastos dividem a escala em intervalos de meio-tom temperado, que corresponde a uma razão com uma frequência de 1.05946 o que é muito perto da razão 18:17, o que nos introduz a Regra dos Dezoito. Esta Regra dos Dezoito diz que cada trasto deve estar colocado a 1/18 da distância restante (d) do último trasto até à ponte. Assim, o espaçamento entre os trastos (x) vai diminuindo à medida que se vai percorrendo a escala em direção à ponte.
A partir do momento em que a razão 18/17 atinge 1.05882 em vez de 1.05946 (um erro de 0.07 %) cada meio-tom vai ficar ligeiramente mais pequeno. Na altura em que se atinge o décimo segundo trasto a oitava vai estar 12 Cent (12/100 meios - tons) mais curta, que é percetível ao ouvido humano. Então, para se obter uma melhor afinação, deve-se usar o número 17,817 em vez de 18, ou seja, cada trasto deve ser colocado a 0.05613 da distância restante à ponte.

Cálculo do espaço entre os trastos :
X = d / 17.817
Em que :
X - espaço do trasto
d - Distância do último trasto à ponte

Outro problema presente neste instrumento, é que quando premimos uma corda contra o trasto estamos a aumentar ligeiramente a tensão da corda. Este efeito é mais evidente nas guitarras de cordas de aço que nas de nylon. Assim, as notas obtidas nos trastos tendem a ser ligeiramente mais agudas do que quando obtidas numa corda solta. Quanto maior for o espaço, em altura, entre a corda e o trasto (ou seja a escala), maior será o efeito de Sharpening. Para compensar esta alteração de tensão das cordas, provocada pela digitação das notas nos trastos, a distância do pente à ponte é tornada ligeiramente maior do que o comprimento da escala usada para determinar o espaçamento dos trastos. Este pequeno comprimento extra é chamado de "string compensation" (compensação da corda), e está compreendido entre 1 a 5 mm.
Com o comprimento da corda (do pente até a ponte) que normalmente é 655mm divide por 17,817 e com o resultado (36,7mm) acha-se o primeiro trasto. Com a medida restante faz-se a mesma operação e acha o segundo trasto e assim por diante.

EX: 655:17,817 = 36,7 comprimento do primeiro trasto a contar do pente.
655 - 36,7 = 618,3
618,3:17,817 = 34,7 comprimento do segundo trasto.
618,3 – 34,7 = 583,6
583,6:17,817 = 32,7 comprimento do terceiro trasto.

E assim por diante até ao último. Com estes cálculos o comprimento do braço, da escala ou o vão (do pente à ponte), pode ser alterado pois os trastos são sempre colocados na medida exata.
Depois de traçados todos os trastos devemos aumentar em cerca de 2 milímetro a distancia pente/ponte para o chamado "string compensation” que não é mais que a compensação de corda ou seja. Ao premir uma corda esta fica com o som mais agudo que a mesma nota dada por uma corda solta (efeito de Sharpening ) e este problema aumenta quando a distancia da corda à escala é maior devido à alteração de tensão. A distância extra ajuda na afinação das notas com cordas pressionadas.

Cada uma das distâncias, na imagem abaixo, é igual a 327,5 mm o que dá um comprimento total da corda livre de 655 mm.