O Formato ou a Medida da Prancha

O desenhador tem de escolher o formato de papel que mais lhe convenha e o que o faça trabalhar mais à vontade, de acordo com o formato da revista ou álbum onde irá publicar. Por exemplo, o A3 (420X297 milímetros) pode ser adequado para alguns desenhadores, enquanto se sabe que Harold Foster, para a história do Príncipe Valente nas tiras diárias dos jornais utilizava um tamanho de 380X730 mm. Por sua vez, Enki Bilal, desenhava vinhetas separadas, como pequenos quadros sobre papel/cartão que mais tarde seriam montadas para compor a página. Saiba que quanto maior é o formato do papel em que se desenha maiores são as figuras; portanto, mais perfeitas estas podem ser desenhadas. Mais tarde, na sua publicação, estas serão diminuídas às medidas standard (280X220 mm), o que faz com que o desenho se apresente numa perfeição ímpar, desaparecendo, assim, pequenos erros. Não devemos, contudo, descurar o trabalho pensando que com a sua publicação esses erros passem, inobservados. Teremos, pois, de ser perfeitos no original para que a publicação possa vir a ser uma obra de arte. Sim, uma obra de arte porque a banda desenhada também é isso, e Jean Giraud, com os seus 27 álbuns das aventuras do Tenente Blueberry conseguiu que a série seja hoje uma verdadeira obra de arte. Se você a conhece verá que não exagero. Portanto, desenhe em grande mas nas medidas relacionadas com a página onde irá publicar, aumentando-a para o dobro ou triplo, assim poderá trabalhar muito mais à vontade.

As Vinhetas

O número de vinhetas pode variar segundo o género e o desenhador. Nas histórias infantis podem ser utilizadas até 12 vinhetas por prancha, mas isso também acontece na BD em geral, basta que, numa página, existam uma série de primeiros planos pois, como estes são desenhados num formato menor, terão de existir mais vinhetas por página. Outro fator é o argumento que poderá ser demasiado longo para o número de páginas do álbum onde se irá publicar, o que obriga o desenhador a utilizar mais vinhetas por prancha ganhando, assim, espaço. Existe, porém, uma regra que diz que, por página, deverão existir duas ou três filas na horizontal, o que nos daria um número de 6 ou 9 vinhetas. Porém, com o tempo, as regras de menor importância, como esta, são postas de parte pelos profissionais, e há mesmo quem utilize por página 4 ou 5 vinhetas e, em muitos dos casos, quando o argumento o exija, uma só vinheta. Existem também obras que carecem do limite, ou quadro das vinhetas aparecendo assim ações sobre ações mas isso não é para agora, pois requer um certo profissionalismo e, sem ele, a história apareceria confusa e, portanto, sem interesse. Veja um bom exemplo do português José Ruy nos volumes de “Os Lusíadas”. Que lhe parece? Os tamanhos das vinhetas são também importantes. Como já lhe disse, um Plano Geral supõe um tempo longo de leitura, por isso se desenha de tamanho maior, enquanto que um Primeiro Plano, sendo um tempo breve, se desenha em tamanho mais pequeno. Devemos dar, portanto, a cada vinheta o tamanho adequado. Também o formato da vinheta é importante: por exemplo, se queremos desenhar uma personagem em corrida ficaria bem se essa vinheta fosse mais comprida que alta para, assim, abrir espaço à corrida da personagem; se, pelo contrário, essa personagem está imóvel, a vinheta por sua vez representar-se-ia mais alta que larga pois a personagem não necessita de espaço em seu redor para se mover.

A Composição da Prancha

É um erro pensar que todo o trabalho de composição deve estar sujeito ao enquadramento das vinhetas, descuidando, assim, o aspeto geral da página. Ao abrir um álbum de banda desenhada a primeira mensagem que chega ao leitor é o aspeto gráfico da composição da prancha, se este for confuso, o leitor, simplesmente não compra. A página tem de ser, portanto, uma obra a contemplar em toda a sua totalidade, onde exista equilíbrio sem grandes vinhetas ao lado de outras demasiado pequenas e sem que, por isso, se equilibre através do desenho e da cor. Deve portanto existir uma atração necessária para conquistar o leitor e o levar a comprar a nossa obra.

O Desenho Inicial

Depois de estudadas as vinhetas e a composição da página, distribuindo por ela as vinhetas, passamos ao desenho a lápis. Quando desenhamos a prancha a lápis parece-nos que essa não seja muito importante já que, depois de passar a tinta, o desenho inicial a lápis apaga-se, deixando assim de existir. O que é certo é que nunca poderemos passar perfeitamente a tinta sobre um desenho inicial a lápis mal construído ou incompleto; portanto, o original a lápis terá de ser completo com os claro-escuros e figuras perfeitamente desenhadas para que, depois, o desenho a tinta siga esses mesmos passos sem necessidade de improvisação já que, depois, dificilmente se poderá apagar. É conveniente que utilize um lápis rijo, por exemplo o H visto que um macio sujaria demasiadamente o desenho, como é o caso do 2B. Seria conveniente que desenhasse cada vinheta num papel fino, que estude aí as personagens nos seus movimentos e, só depois, quando estiver satisfeito, o passe para o papel original por meio de decalque. Desenhando diretamente na folha original pode dar-se o caso de ter de apagar e refazer uma e outra vez o desenho, estragando a superfície do papel; portanto, aí fica um conselho: desenhe em papel fino a vinheta de tamanho correspondente à do original, pinte-lhe depois o dorso com lápis de grafite macio e decalque na prancha.

A Mancha

A mancha é o total das vinhetas desenhadas por página, ou seja, a medida da largura e da altura do desenho total feito por página e que engloba todas as vinhetas incluídas na prancha. Note que em torno da mancha existe um espaço em branco, isso serve para proteger o desenho da guilhotina utilizada na editora para aparelhar as páginas depois da sua impressão. Porem há casos em que não se deixam margens: é o caso das capas ou até mesmo de algumas histórias que, pela maneira original de trabalhar do seu autor, carecem de margens, não pecando por isso. Quando as margens não existem diremos, na nossa gíria, que a página foi DESENHADA A MORDER.