Tal como vimos na lição anterior das técnicas de BD, a montagem dá-nos a acção, o tempo e o movimento, essa é a base da narração para uma perfeita leitura, mas existem outras estruturas que nos permitem enriquecer a obra: são os efeitos especiais. Não devemos, contudo, abusar deles, aplicando-os somente em determinados momentos para conseguir transmitir uma maior expressão. Vamos, pois, ao primeiro...
Sempre tem sido pouco utilizado em Banda desenhada mas, quando se utilizam no seu momento justo dão um excelente efeito de realidade à sequência onde se inserem. Mas o que é que entendemos por momentos de silêncio e como é que se realizam? Imagine que neste momento você está a ter uma conversa com alguém. Repare que, a certas alturas, existem uns momentos de silêncio no decorrer da conversação, ou porque foi feita uma pergunta à qual a resposta tem de ser pensada antes de responder ou porque não encontramos a palavra adequada a certos momentos ou, ainda, porque existe uma certa preocupação no assunto que se está a tratar. Então passa-se algum tempo a pensar no que há a dizer. A esses momentos, que podem durar poucos segundos, em que se está sem falar, chamamos MOMENTOS DE SILÊNCIO. Esses momentos de silêncio são representados em BD com uma vinheta sem diálogo ou muda no meio da sequência que incorpora a ação da conversação. Ela serve, como já disse anteriormente, para dar um bom efeito de realidade à cena.
É utilizado para destacar uma acção importantíssima.
Quando um dado movimento tem demasiada importância dentro da sequência podemo-lo mostrar em Slowness ou câmara lenta, o que o fará destacar de maneira notável.
Por exemplo: “Um indivíduo é atingido por um tiro e cai de costas soltando um grito”. Se mostrar-mos a queda dessa personagem em Slowness, essa ação distribuída em 3 ou 4 vinhetas que nos mostra a morte da personagem tem assim mais dramatismo,
e ao leitor não passará despercebida como sucederia se fosse mostrada numa só vinheta.
O Slowness é portanto o prolongamento de uma ação dando-lhe uma importância máxima.

© Le Lombard / Rosinski
Se queremos dramatizar uma ação poderemos utilizar a fusão de vinheta a qual consegue a desejada força dramática além de um bonito efeito. Como pode ver na figura seguinte, a acção é dividida em diversas vinhetas, tal como o Slowness; só que, aqui, vai-se aproximando ou afastando gradualmente como se fosse captada pelo zoom de uma câmara de filmar.
As imagens aproximam-se quando a tensão vai crescendo, ou afastam-se dando a ilusão de calma, solidão, frieza...

© Le Lombard / Andreas
Existem momentos em que o autor da história quer que o leitor encarne uma das personagens, para isso recorre à visão subjetiva, que consiste em desenhar a cena como se fosse vista por
uma dessas personagens. Um exemplo bem conhecido é uma cena vista através de um par de binóculos.
Na figura abaixo Vemos uma cena dessas, isso dá a sensação ao leitor que é ele que vê através dos binóculos. Uma cena tratada desta maneira serve para incorporar o leitor na história,
fazendo com que esse viva pessoalmente a cena encorpando um personagem por detrás dos binóculos.

Os encadeados são utilizados mais frequentemente nas histórias de terror; eles representam-se em diversas vinhetas e mostram uma metamorfose.
Um exemplo muito conhecido é a transformação do lobisomem, mas não só.
Recorda, no filme Super-homem em que este, em corrida, se transforma de Clark Kent em Superman?
Bem, isto também é um encadeado, embora a transformação não seja física mas somente de vestuário.

© Le Lombard / Kas - Rosinski
Os fundidos representam-se em diversas vinhetas e consistem em aclarar ou escurecer progressivamente uma cena, vinheta a vinheta. Na imagem abaixo, numa só vinheta,
que na realidade são quatro, vemos um indivíduo que supostamente está numa máquina do tempo e se faz tele-transportar… sabe-se lá para onde.
Outra cena muito famosa é a de um indivíduo que, ao receber um golpe, perde os sentidos. A cena terá mais realismo, como veremos mais adiante, se esse primeiro plano
se for escurecendo dando, assim, a ilusão da perda dos sentidos.
Para evocar o passado numa história utilizamos o Flash-Back ou imagens vividas anteriormente e narradas na actualidade por uma das personagens. O Flash-Back serve, portanto, para poupar textos narrativos, os quais se tornam cansativos. O narrador deixa aqui de ser o guionista passando a ser a personagem que conta a história. Por sua vez, quando o conto antecipa o futuro chama-se Flash-Forward.
Os ângulos de visão fazem parte dos planos, mas também dos efeitos especias e são o ponto de onde a partir do qual se observa as acções. Existem três: ângulo de visão médio, picado e contrapicado. A saber:
A ação desenrola-se à altura dos nossos olhos. A cena pode acontecer tanto no interior como no exterior. É o mais utilizado em BD.
© Le Lombard / Swolfs
A ação é focada de cima para baixo como se olhasse-mos do cimo de uma varanda, vendo assim as personagens em PICADO.
© Dark horse comics / Ryan Kelly
Este ângulo de visão é o oposto do anterior. Focamos a ação de baixo para cima como se olhasse-mos alguém sobre uma varanda estando nós no solo.
