Talvez por estarmos habituados a ver a BD como uma arte para desenhadores, transcoramos o guião. O que é certo é que, com um mau guião, nunca se poderá fazer uma boa história, mesmo que o desenho seja de mestres. Escrever um bom guião não é tão fácil como possa parecer à primeira vista nem tão difícil que não possamos aprender a escreve-lo. Se lermos as aventuras de Asterix escritas por Goscinny, ou as do Tenente Blueberry, por J. M. Charlier, entre outras, dar-nos-emos conta disso. Em primeiro não é só saber escrever, há algo bem mais importante como as sequências, ações, documentação, efeitos especiais, encadeados, ritmos, etc. Imagine um arranha-céus construído sobre uns alicerces pouco profundos; pouco tempo após a sua construção este ruiria levando a tribunal o arquiteto e o construtor. Na BD passa-se o mesmo ou quase: o arquiteto será neste caso o guionista; o construtor é o desenhador e os alicerces da obra são o guião, que, sendo “pouco profundo” mal construído, levaria à não publicação da história e, pior, desacreditaria as assinaturas dos seus autores para o futuro perante um publico que exige ser bem servido. Pois bem, vamos iniciar com algumas descrições sobre composição do guião, e só na segunda parte darei um exemplo prático de como escrever uma história, da sua nascença até ao produto final.
É a criação da história escrita sem os mínimos detalhes. Para esta criação teremos de nos guiar pelo nosso estilo favorito, quer seja o Bélico, o Oeste, o Policial, etc.
Essa história será o produto final em bruto e que dividimos, depois de escrita, nas três partes principais, que são:
-INTRODUÇÃO,
-DESENVOLVIMENTO,
-CONCLUSÃO.
Ou seja: o princípio com a introdução do drama e das personagens; o desenvolvimento que é toda a fase central da história e que pode ir desde as primeiras vinhetas à última página e
a conclusão, que é onde termina a história, ou seja, onde se resolvem os problemas ou dramas iniciados com a introdução.
Depois do guião literário pronto vamos dividi-lo em sequências. Que são as sequências? Poderemos defini-las como um grupo de vinhetas que sucedem todas no mesmo período de tempo ou lugar e a sua extensão pode oscilar entre uma só vinheta e uma página inteira ou mais. O tamanho das sequências, mais ou menos longas, tem a ver com a importância destas dentro da história, isto é, quanto mais vinhetas utilizamos para narrar uma sequência, mais importante, para o entendimento da história, essa sequência se torna, e vice-versa. Depois da divisão do guião literário em sequências, e estas num número limitado de vinhetas, poderemos prever, então, a quantidade de páginas com que contará a nossa história. Neste ponto pode dar-se o caso que o número de páginas seja superior ou inferior às páginas da revista onde a história irá ser publicada, então que há a fazer? Simples, basta cortar algumas sequências de menor importância, assim como algumas vinhetas das sequências mais longas ou ainda, juntar duas sequências numa só vinheta. Efetuando estes cortes - a que chamamos ELIPSE - notamos que ficam lacunas na narração... é óbvio pois deixou de existir continuidade, mas isso facilmente se resolve com textos de enlace que servem para tapar essas lacunas, fazendo com que a história tenha a continuidade desejada. Se o caso for o de faltar páginas então teremos de aumentar vinhetas a certas sequências ou até mesmo criar sequências novas.
Conhecendo a história, o drama, e a ambientação, passaremos à criação das personagens principais, tal como se disse na primeira parte das técnicas de BD e, com isto, à documentação de acordo com a época e o lugar de ação do argumento. Não esqueça, a documentação é muitíssimo importante, nada deve ser deixado ao acaso, uma falha nossa pode passar despercebida para algumas pessoas, mas não para todas e estas podem sentir-se defraudadas, banalizando o autor da história.
Cada sequência é formada por um conjunto de ações, sendo estas divididas pelas vinhetas que compõem cada sequência. Se a sequência for composta por uma só vinheta, então,
o papel desta terá de ser completo, já que é esta a finalidade da sequência. Portanto, depois da divisão do guião em sequências e baseados no Story Board, deveremos atribuir
a cada sequência um número justo de vinhetas; mais vinhetas para as sequências mais importantes e menos para as de menor interesse, para que o leitor passe por elas rapidamente
e não as entender por pontos chave para o entendimento da história.
Deveremos mentalizar-nos que a imagem deverá ter mais possibilidades expressivas que o texto e nunca repetir por palavras o que o leitor possa ver nas figuras, os textos
somente servem de apoio. De nada serve dizer: "Jack corre em direção à porta de casa", se depois o desenho mostra isso mesmo.
Vamos agora consolidar tudo o que aprendemos durante a primeira parte do capitulo de guião com uma pequena história escrita de maneira muito superficial, sem entrar em grandes detalhes pois só assim, penso eu, teremos mais facilidade em iniciar a aprendizagem. Dê tempo ao tempo pois teremos de caminhar lentamente para chegar ao cume desta apaixonante arte. Vamos seguir por partes, calmamente, iniciando pelo guião literário e passando, depois, pelas outras partes já estudadas anteriormente para chegar, por fim, à história completamente terminada, o produto final.
Título: Revolta na Corte
“1780, um navio da marinha britânica está de volta a Inglaterra quando é atacado por um outro de piratas. Depois de um pequeno combate os ingleses rendem-se e os piratas
procuram ouro e joias; é então que o capitão pirata decide raptar a princesa que está a bordo, pedindo um resgate de 1000 rublos em ouro. Os piratas abandonam o galeão inglês
levando consigo a princesa. Dias mais tarde o navio inglês chega a Inglaterra sendo a rainha informada do ocorrido. Entretanto os piratas chegam à sua ilha. Nessa noite festejam
com um grande banquete. Semanas mais tarde, enquanto o capitão pirata dorme, um navio inglês chega à costa e dispara um dos canhões, dando o sinal. Os piratas, vendo o navio de
bandeira inglesa, preparam-se para combater. O capitão pirata fá-los parar. Os ingleses pagam o resgate mas a princesa decide ficar com os piratas”. FIM
Acabámos de ver como se constrói o guião literário, com quanta simplicidade de detalhes este se pode executar mas sem fugir às acções importantes. Vejamos em seguida as primeiras
divisões nas três partes principais e estas em sequências.
INTRODUÇÃO:
1ª Seq.: 1780, um navio da marinha britânica está de volta a Inglaterra
2ª Seq.: quando é atacado por um outro de piratas. Depois de um pequeno combate
3ª Seq.: os ingleses rendem-se
4ª Seq.: e os piratas procuram ouro e joias;
5ª Seq.: é então que o capitão pirata decide raptar a princesa que está a bordo, pedindo um resgate de 1000 rublos em ouro.
DESENVOLVIMENTO:
6ª Seq.: Os piratas abandonam o galeão inglês levando consigo a princesa.
7ª Seq.: Dias mais tarde o navio inglês chega a Inglaterra
8ª Seq.: sendo a rainha informada do ocorrido.
9ª Seq.: Entretanto os piratas chegam à sua ilha.
10ª Seq.: Nessa noite festejam com um grande banquete.
11ª Seq.: Semanas mais tarde, enquanto o capitão pirata dorme, um navio inglês chega à costa e dispara um dos canhões, dando o sinal.
12ª Seq.: Os piratas, vendo o navio de bandeira inglesa,
13ª Seq.: preparam-se para combater.
14ª Seq.: O capitão pirata fá-los parar.
15ª Seq.: Os ingleses pagam o resgate mas
CONCLUSÃO:
16ª Seq.: a princesa decide ficar com os piratas (FIM)
Como vê não é difícil dividir o guião literário.
Neste ponto poderemos já documentar-nos sobre a época em que se desenrola nossa história (1780), buscando documentação de armas,
fardas da marinha inglesa, vestimentas de piratas, casas, palácio real etc. Para o guionista é necessário algo mais, tal como expressões
utilizadas na marinha da época. Consulte filmes e pesquise em bibliotecas, encontrará sem duvida o que necessita.

Chegados aqui inicia-se a construção do Story Board que nos irá dar uma ideia do que será a história final. Aqui podemos ajustar o guião à arte gráfica, ou como se costuma dizer: "alinhavamos" tudo. Vou só dar o exemplo de uma página de Story Board que, mais à frente a iremos ver perfeitamente terminada.

Acabámos de ver, no Story Board, a quantidade de vinhetas com que contei cada sequência e, em particular, toda a história, mas acontece que depois do trabalho feito notei que algumas
vinhetas poderiam ser suprimidas e a razão que me levou a isso foi o de não querer fazer certas sequências demasiadamente longas por não serem de grande
importância. Eliminei, então, as vinhetas sem as quais as sequências poderiam ser igualmente entendidas.
Esta é a finalidade do Story Board, facilitar-nos a distribuição e a quantidade de vinhetas pelas sequências e poder ter uma ideia do que será o trabalho pronto e poder corrigir erros
que de outra forma só seriam vistos depois do trabalho terminado, o que seria muito tarde.
Temos assim:
1ª Seq.: 2 Vinhetas, 2ª Seq.: 3 Vinhetas,
3ª Seq.: 3 Vinhetas, 4ª Seq.: 1 Vinheta,
5ª Seq.: 4 Vinhetas, 6ª Seq.: 1 Vinheta,
7ª Seq.: 1 Vinheta, 8ª Seq.: 1 Vinheta,
9ª Seq.: 2 Vinhetas, 10ª Seq.: 2 Vinhetas
11ª Seq.: 2 Vinhetas, 12ª Seq.: 1 Vinheta,
13ª Seq.: 1 Vinheta, 14ª Seq.: 1 Vinheta
15ª Seq.: 3 Vinhetas, 16ª Seq.: 2 Vinhetas
A quinta sequência, a mais importante do guião, por residir aí todo o drama da história, será tratada com um maior número de vinhetas.
Temos, pois, uma história contada em dezasseis sequências e trinta vinhetas, o que nos dá um número aproximado de 5 ou 6 páginas,
sendo as vinhetas mais importantes dentro de cada sequência,
serão também desenhadas de tamanho maior. Temos, assim, mais vinhetas nas sequências de maior interesse e vinhetas maiores nas ações
de maior interesse dentro de cada sequência. Com isto estamos prontos a passar ao guião técnico, o tão desejado produto final.