Guião Técnico

Finalmente! Este é o produto final já revisto e estudado. Ele deve indicar o número de vinhetas por página, o texto descritivo, o narrativo e os diálogos, assim como os planos. O texto descritivo serve para indicar ao desenhador tudo o que deve figurar dentro da vinheta e que foi pensado pelo guionista, até mesmo os mais pequenos detalhes. Poderá então o desenhador, através dele, construir perfeitamente a ação imaginada em precedência. Os textos narrativos e os diálogos são os que acompanham o desenho, a história, é o que o leitor vai ler. Há que indicar ao desenhador também a emoção ou sentimento a dar a cada cena para que o desenho siga a par e passo com o guião e que, entre um e outro, não existam barreiras. A ilusão deverá ser perfeita e tanto o guião como as imagens devem fazer parte de uma única obra fortemente consolidada. Os textos devem ser fluidos e sem palavras estranhas ou frases demasiado trabalhadas. Abaixo o exemplo de um guião técnico e a respetiva página desenhada. Não fui além, com as restantes páginas desta história, mas penso que dei a entender o que me propunha.




Sequências e Encadeados

Continuando com outros temas que podem melhorar as nossas pranchas. Já vimos como se divide o guião nas três partes, o que são as sequências, como se realiza o Story Board e o guião técnico. Veremos em seguida com as Sequências e Encadeados como se consegue a longevidade e a qualidade do guião, o qual está dependente do perfeito domínio da distribuição e montagem das sequências. Tal como no desenho da história teremos de recorrer aos planos e ângulos de visão para não cair na monotonia, também no guião teremos de recorrer a algumas sequências especiais para fazer com que a história ganhe interesse e qualidade não devendo contudo abusar delas. Vamos, pois, ver quais são estas sequências e como se realizam.

Flash-Back

Já o vimos anteriormente no capítulo do desenho e acrescento dizendo que o Flash-Back aparece muitas vezes no inicio das histórias para pôr o leitor ao corrente de “problemas” passados anteriormente com as personagens, os quais se irão relacionar com o atual guião. É como criar às personagens uma vida anterior. O Flash-Back é também um pensamento ou um relato do passado apresentado na atualidade.

Sequência Panorâmica

Consiste em distribuir a ação da sequência por várias vinhetas mas sobre o mesmo fundo, ou seja, uma paisagem dividida em diversas vinhetas aparecendo a personagem, ou as personagens, em todas elas mas em posições diferentes, quanto ao fundo, todas as vinhetas desta ação formam um desenho. Cada vinheta poderia viver separada das outras mas todas juntas darão uma ação completa.
© Le Lombard / Rosinski

Sequências de ação Simultânea

Serve para nos dar a sensação de que duas sequências estão a ocorrer no mesmo período de tempo. Alternando, pois, as vinhetas que contêm as ações das sequências em causa, teremos essa ilusão perfeitamente conseguida. Existe também a necessidade de mudar de planos ou ângulos de visão.
© Le Lombard / Andreas

Fusão de Vinheta

É tal como a que vimos nas técnicas de desenho e acrescento que a imagem pode aproximar, também, para destacar um detalhe de importância para o entendimento do guião. Veja, para um melhor entendimento que aproxima o relógio que mostra uma data: (19-04-1972) esta data tem a ver com o andamento da história.
© Le Lombard / Andreas

Os Fundidos

Como sabemos, o guião é composto por um número limitado de sequências; cada uma termina precisamente onde a seguinte se inicia, mas acontece que muitas vezes nessa passagem de uma sequência a outra fica uma lacuna, que é como um fosso que separa as sequências fazendo com que a seguinte não se relacione com a anterior. Para tapar essas lacunas o guionista e, mais tarde, o desenhador, recorrem a um grande número de artimanhas que são: diálogos, onomatopeias e textos de enlace além das sequências e efeitos especiais. Nas sequências especiais vai um destaque para os fundidos, que relacionam perfeitamente duas sequências. Veja um exemplo na figura abaixo. Como vê existem duas sequências: na primeira, a ação da personagem que perde os sentidos; depois entra essa vinheta negra que nos sugere que essa personagem entrou num sono profundo, entrando em seguida a segunda sequência com duas ações — na primeira ação é a personagem que recupera os sentidos e na segunda o doutor que lhe fala. Como vê, são duas sequências com três ações encadeadas por um fundido, ou seja, a vinheta negra e a seguinte, que nos mostra o fim da primeira sequência e o princípio da segunda.

Encadeado de Fundo

Tal como os fundidos, os encadeados também se adaptam bem ao enlace de duas sequências. Veja na figura abaixo, essas duas vinhetas — também são duas sequências e duas ações. Na primeira vemos a acção de um homem que tenta agarrar algo; na segunda vinheta, a ação de Efire que tenta fugir. O encadeado de fundo é precisamente o que está representado nessas duas vinhetas de José Ruy: é a mão do homem que passa os limites da vinheta em direção à segunda sequência ligando-a, assim, à primeira.
© José Ruy

Os Textos

A importância dos textos é enorme para o entendimento do guião e são um meio que, utilizado corretamente, ajuda a tapar essas lacunas de que se falou anteriormente; as que existem entre uma sequência e outra. Existem quatro tipos de textos, que são: Textos Narrativos, Diálogos, Onomatopeias e Textos de Enlace. Eles fazem com que a história tome vida e as suas personagens o dom da palavra.

Textos Narrativos

Os textos narrativos, há vários, servem para reforçar as imagens naquilo que nelas não se possa ver. Servem também para contar, no inicio de uma história, aquilo que se passou anteriormente e no que irá ficar baseada toda a narração futura; serve, além disso, também para tapar os cortes existentes entre sequências sendo para isso os mais utilizados os textos narrativos de tempo e lugar. Vejamo-los mais detalhadamente.

Texto de Introdução

Na figura abaixo Podereis ver um texto narrativo de introdução, que é aplicado na primeira vinheta da história e que nos dá a conhecer onde se irá passar a futura narração.
© Editorial Futura / Jesus Blasco


Texto de Reforço

Recorda-se do que lhe disse anteriormente na segunda parte das técnicas de Desenho sobre o maior ou menor número de vinhetas segundo o tipo de ação? “Um maior número de vinhetas para narrar uma ação, dá-nos um tempo longo”. Recorda-se, não é verdade? Pois há casos em que um tempo longo tem de ser contado em menos vinhetas como, por exemplo, a longa caminhada de uma personagem através de um deserto. Não seria correto representar essa caminhada ao longo de uma página pois resultaria cansativo. Então, aqui teremos de recorrer aos textos narrativos de reforço poupando, assim, imagens. Duas vinhetas em planos diferentes com um texto que dissesse: “Caminhou varias horas através daquele deserto escaldante e aparentemente sem vida”. Como vê um tempo breve com um texto inteligentemente colocado, transforma-se assim num tempo longo, tão longo quanto a caminhada no deserto.


Tempo e Lugar

Quem não viu já alguma vez ao folhear um álbum de BD aqueles textos que dizem:
- Dois dias mais tarde.
- Na manhã seguinte.
- Uma hora depois.
Estes são textos de tempo e lugar e sem eles aconteceria que o leitor a um dado momento perderia o fio à meada sem conseguir acompanhar os saltos na narração. Estes textos ligam perfeitamente duas sequências que aparentemente nada tinham a ver uma com a outra.


Protagonista Narrador

Estes são os textos do Flash-Back e são, como disse anteriormente, um relato contado por uma das personagens sobre o ocorrido no passado, mais ou menos recente, da sua vida. Nestes casos as imagens das vinhetas serão relatadas pelos textos, ou seja, deve figurar na narração o que se vê na ilustração.

Acabámos de ver os textos narrativos. Recorde que não deve abusar deles pois as imagens devem falar por si sós. Aplique-os, portanto, somente onde o desenho não consiga transmitir o desejado ou para contar algo que não se possa ver na vinheta, à exceção do protagonista narrador ou Flash-Back.


Os Diálogos

Entendemos por diálogos a conversação ou pensamentos das personagens e são normalmente representados dentro de balões, os balões de diálogo. Esta maneira de “dar voz” às personagens veio-nos, como a BD em geral, dos Estados Unidos da América. Até então, na Europa, utilizavam-se os textos no pé da vinheta e ainda hoje alguns desenhadores o utilizam — é o caso do português Eduardo Teixeira Coelho — ele utilizou esta forma de legendar.


Texto em Off

Já o vimos, por acaso, na história anterior, “Revolta na corte”. Eles são diálogos que representam a voz de uma personagem vinda de fora do quadro da vinheta; portanto, que não está presente na ilustração. Este texto é excelente para ligar duas sequências assim como para criar suspense. São textos em Off também aqueles que vêm do interior de uma casa, por exemplo, e cujos locutores não estão presentes, fisicamente, na vinheta, onde somente se ouve a sua voz.


Os Pensamentos

A representação gráfica de um balão de pensamento é algo diferente da de um de diálogo; portanto o guionista deverá indicar no guião técnico quando se trata de um pensamento para que, então, o desenhador o possa representar adequadamente.


Onomatopeias

O dicionário diz-nos a este respeito: Onomatopeia: Palavra formada por harmonia imitativa. Por outras palavras, é a representação gráfica de rumores. Está claro? Quero deixar presente que as onomatopeias variam de país para país e temos como exemplo uma gargalhada que em português se representa: Ah! Ah! Ah! Em espanhol seria Ja! Ja! Ja! As onomatopeias estão, portanto, ligadas à gramática de cada país. Dou-vos abaixo uma lista das onomatopeias mais utilizadas.

Ah! – grito de surpresa, dor, medo
Ah! Ah! – risada ou gargalhada
Ahhh! Aaah!, alívio
Ahn! – choro
Argh! – nojo
Atchim – espirro
Bah! – desagrado
Bam! – tiro de revólver
Bang! – tiro
Baruuum! - trovões
Buá! – choro
Bawoing! - corda após soltar flecha
Bash! – queda
Beep! – bip, ruído eletrónico
Bruum! – explosão
Boom! – tiro, explosão
Bóim! – mola soltando, animal pulando
Brrr! – sensação de frio
Burp! – arroto
Buzzz! bzzz! – abelha
Chop! tchap! – chapinhar
Clang! – batida em objeto metálico
Clap! clap! – palmas
Click – ligar ou desligar
Coff! Coff! – tosse
Crack! – quebrando
Ding! Ring! – campainha
Eeek! – soluço
Fuiiim! – algo cortando o ar, zunido
Glub! glub! – beber
Grrr! – animal
Gulp! glup! – engasgo
Ha! Ah! Ah! – gargalhada
Hã? Huh? – interrogação
He! he! he! – risinho de satisfação
Hmmm hum... – reflexão
Hoot! uuu! – vaia
Hum! – satisfação
Iééé! – travagem de carro
Ih! ih! ih! Ih! – riso ridículo
Lamb! – lambida
Ka-boom! – bomba
Klunk! – ruído surdo de objeto caindo
Knock! – batida
Miau! – miado de gato
Mmm! huuum! – satisfação
Muak, Muak – buzina antiga
Muuu! – mugido de bovino
Oops! – espanto; medo; surpresa
Ouch! ai! – grito de dor
Pfft! pfft! – cuspir; desprezo
Ping! – gota caindo
Pip, pip - buzina
Plomp – algo caindo
Plop! – batida em objeto oco
Puf! – desaparecer de repente
Pow! – soco
Psst! – expulsar ou chamar atenção
Rá-tá-tá! – metralhadora
Riiinch! – relincho
Ring! ding! – campainha tocando
Rip! – rasgando; tesoura cortando
Roar! rawww! – rugido
Ronc! – ressonar
Sigh! ai-ai! – suspiro
Slam! – porta batendo
Smack! – estalado; Mmm!, beijo
Paft! plaft! – bofetada
Snip-snip! – rasgar
Sniff! fniff! – fungar; cheirar
Soc! pow! sock! – porrada
Splash – algo caindo na água
Sssss! Ssss! – silvo
Swat! zip! – objeto arremessado; fecho éclair
Tap! tap! – tapinha carinhoso
Tatata! tarará! – corneta
Tick-tock – relógio
Toing! tóim! – mola; alguém pulando
Toc, Toc – Bater a uma porta
Trash! – objeto se partindo
Trim! trim! – toque de telefone
Ufa! – cansaço
Ugh! Ug! – exclamação
Uh-HuH! ã-hã! – assentimento
Uhn! hã! – surpresa
Ungh! – choro
Uuf! – suspiro de alivio
Ufa! – suspiro de cansaço ou dor
Vop! – objeto passando rápido no ar
Vrom! brum! – arranque de carro
Whack! pow! – porrada; golpe
Wham! bam! – batida de porta
Wheee! fiii! – bomba caindo
Whomp! vump! – queda
Wow! uau! – exclamação, admiração
Zap! – choque elétrico
Zim! – zunido; ricochete de balas
Zing! zim! – sibilar da flecha
Zok! pof! tou! – pedrada na cabeça
Zoom! zum! zoop! – movimento rápido
Zowie! zum! – zumbido
Zzz! – zumbido de inseto