O Centro de Interesse

Não é tarefa fácil destacar o centro de interesse — ou a personagem principal — no meio de várias figuras, sobretudo quando esse elemento se encontra no segundo ou terceiro plano. Os principiantes caem frequentemente em erros que tornam as suas vinhetas confusas e sem profundidade. O erro mais comum consiste em desenhar um grupo de figuras sem que umas ocultem parcialmente as outras, alinhando-as como se estivessem em fila. Outro erro frequente é tratar todos os planos com a mesma intensidade de claro-escuro, esquecendo que o ar existente entre o primeiro e o último plano atenua gradualmente os contrastes, os detalhes dos rostos e das roupagens. Daí a velha máxima: “À distância, tudo é mais claro e, ao mesmo tempo, mais escuro.” E é precisamente isso que acontece: os brancos distantes surgem envolvidos numa tonalidade cinzento-azulada, tornando-se mais escuros, enquanto os negros perdem intensidade e parecem mais claros. Mas como fazer, então, sobressair o centro de interesse? Como já foi referido, o ar é um elemento visível e influencia diretamente a perceção da profundidade. Assim, quando o centro de interesse se encontra em primeiro plano, deve ser tratado com maior vigor, recorrendo a contrastes fortes, sombras marcadas e abundância de pormenores. Pelo contrário, os elementos colocados nos planos mais afastados devem ser suavizados, com menos sombras e menor definição. Desta forma, o centro de interesse da vinheta capta naturalmente a atenção do leitor. A este efeito chamamos perspetiva atmosférica, ou degradação tonal. Pode acontecer, contudo, que a figura principal se encontre em segundo plano e, por isso, apresente menos vigor visual do que as figuras colocadas em primeiro plano. Nesse caso, torna-se necessário retirar protagonismo às figuras mais próximas. Como? Desenhando-as de costas, parcialmente cortadas pelo enquadramento da vinheta ou com menor expressão visual, para que percam importância e levem o leitor a procurar, quase inconscientemente, outro ponto de interesse: a figura principal, representada de frente. Mesmo estando em segundo plano, esta acabará por assumir maior destaque do que as figuras do primeiro. No entanto, se a personagem principal estiver também de costas, perderá inevitavelmente força visual e passará despercebida. Nessa situação, torna-se necessário recorrer a outro recurso: conduzir até ela todas as linhas do desenho — como os olhares das restantes personagens ou as linhas de perspetiva da composição — orientando assim o olhar do leitor para o verdadeiro centro de interesse.

© Le Lombard / Chaillet



© Le Lombard / Kas - Rosinki

A Montagem

O que é a montagem?... Sim, sim, parece que estamos a falar de cinema, mas que é a banda desenhada senão uma história contada por imagens, tal como o cinema, só que aqui lhe falta o movimento - e aí está o segredo da montagem, dar essa ilusão através da: Planificação de ação, Distribuição de tempo, Percurso visual da história. Só combinando estes três fatores chegaremos a um ritmo adequado conseguindo uma narração perfeita.

Planificação de ação

O primeiro passo que deve dar o desenhador é distribuir o argumento pelas páginas de que dispõe, cortando algumas vinhetas ou juntando duas numa só, se esse trabalho não foi já feito pelo guionista. Isto é, deve separar as sequências do guião e dar a cada uma o número de vinhetas necessário para que essa sequência se possa entender com a sua devida importância. Ou seja, às sequências mais importantes dará um número maior de vinhetas, enquanto que as de menor importância podem ser resolvidas em uma ou duas vinhetas. De seguida deverá atribuir a cada vinheta o tamanho justo; à vinheta mais importante dentro da sequência deverá dar um tamanho maior e menor tamanho à vinheta de menor importância dentro dessa sequência. Dentro destas vinhetas desenharemos, então, as ações, que podem ser uma ou mais por vinheta, segundo o caso. Por exemplo: “Uma personagem, ao ser apanhada pelos guardas armados de lanças, puxa pela sua espada e prepara-se para combater.” Aqui existem duas ações; poderiam existir, também, duas vinhetas? Vamos então ver dois casos práticos. No primeiro exemplo temos duas vinhetas para narrar estas ações. - Primeira vinheta, com a primeira ação, os guardas apontam as lanças ao protagonista. - Segunda vinheta, com a segunda ação, o protagonista puxa pela sua espada e prepara-se para o combate. Bem, não está mal de todo, mas vamos experimentar juntar essas duas vinhetas numa só. O segundo exemplo dá-nos uma só vinheta com as ações dos guardas ameaçadores e, diante deles, o protagonista que desembainha a espada. Este segundo exemplo parece-me o melhor, visto que no primeiro nos dá um tempo longo com a ilusão de que o protagonista teria passado alguns instantes a pensar se se defenderia ou não; Na seguinte não esperou e ao ver-se ameaçado se defende. Mas porquê o primeiro exemplo nos parece um tempo longo? Simplesmente porque sendo duas ações quase simultâneas têm de estar juntas para que não exista esse espaço de tempo entre uma vinheta e outra. Há que pensar que quantas mais vinhetas utilizamos para narrar uma ação, mais lenta esta se nos apresenta.

Distribuição de tempos

Qual será o tempo dentro da vinheta? Como já vimos, se é um plano geral, portanto uma vinheta maior, o tempo é longo; mas se é um primeiro plano o tempo é curto pois a vinheta é pequena e só enquadra o rosto de uma personagem. Este seria o tempo da vinheta, mas como deverá ser o tempo transcorrido entre duas vinhetas ou imagens? Bem, aqui parece realmente um problema, porque esse tempo é o que dá o ritmo ou andamento à história e uma história muito lenta acabaria por cansar o leitor. Como sabemos, em certas alturas o ritmo deve ser muito rápido, tal é o caso de uma perseguição, ou muito lento como uma cena de amor. Então o que há a fazer para que o leitor possa ver essa cena com a rapidez que nós lhe quisemos atribuir? Ora bem, sendo a história do tipo fragmentado, há ocasiões em que as imagens das vinhetas se seguem uma às outras a pouca distância, sendo a primeira vinheta seguida da segunda e esta da terceira, sem que a ação se desenrole muito, ou seja, os protagonistas tiveram pouco tempo entre as vinhetas para fazer grandes coisas ou percorrer um trajeto maior e a ação apresenta-se-nos como se fosse narrada em câmara lenta. Uma história contada assim dá-nos um tempo longo e, como disse antes, é o ideal para narrar uma cena de amor. Por outro lado, contar uma sequência em vinhetas isoladas e, à primeira vista, independentes umas das outras, dá-nos um ritmo narrativo muito rápido, tão rápido que entre uma vinheta e outra aconteceu algo que não está representado, é como uma velocidade vertiginosa que não se consegue acompanhar. Essa é a ilusão que teremos de transmitir às nossas cenas. Além disso deve ter-se em atenção para que as ações simultâneas não fiquem em vinhetas separadas.

Percurso Visual da História

É mais um truque que nos dá o movimento da história. Como sabemos as frases escrevem-se e leem-se da esquerda para a direita; Também a banda desenhada se desenrola da esquerda para a direita, seguindo a direção das palavras escritas e as suas personagens se movem, na maioria dos casos, nesse sentido... Mas porquê? Talvez nem todos os profissionais estejam de acordo comigo, mas, se seguíssemos a leitura da história da esquerda para a direita e as ações se desenrolassem no sentido inverso, o passo da leitura, acompanhado pela visão das imagens, seria travado, fazendo assim com que os ritmos rápidos se tornassem lentos e os lentos, tão lentos a pontos de nos cansarem. Temos, portanto, de seguir o percurso visual da história ajudados pelo desenho que irá seguir esse caminho. Há no entanto cenas que se desenrolam no sentido inverso, mas esses são casos especiais a que queremos dar uma maior atenção e fazer com que o leitor se detenha aí como se por uma ordem nossa sem que ele se aperceba.

Os Planos

Nos Planos, as ações afastam-se ou aproximam-se segundo o interesse da ação e o que querem mostrar: um ambiente, uma expressão ou um gesto. Os planos são importantes no andamento da história, já que cada um representa um tempo de leitura, uma possibilidade expressiva e um grau emocional diferente, mas isso fica lá mais para diante; vamos, no entanto, começar por conhecer os diferentes planos.

Plano Geral - PG

Mostra-nos uma paisagem. Embora se possa ver alguma figura, o papel principal joga-o o ambiente. Serve para nos dar a conhecer um dado sítio ou onde se irá desenrolar uma ação. Quando o plano tem uma grande profundidade de campo chama-se Plano Geral Extremo (PGE). Aqui as figuras não se podem apreciar e é pouco utilizado na BD.

© Enki Bilal

Plano de Conjunto -PC

É onde o ambiente e as personagens têm todo o seu valor, não podendo existir, para o bom entendimento da vinheta, um sem o outro. Aqui as figuras têm todo o seu esplendor e mostram-se de corpo inteiro.

© Le Lombard / F. Vignaux

Plano Inteiro - PI

Também aqui as figuras se mostram inteiras e com todo o seu esplendor enquanto ao ambiente ao seu redor quase não se lhe faz referência, ou não se faz de todo. Estes planos dão mais autoridade às figuras, ajudando-nos a concentrar a atenção nos movimentos sem ser perturbados pelo ambiente ou paisagem circundante.

© Glénat / Dongzi Liu

Plano Americano - PA

O plano americano aproxima-nos um pouco mais as figuras, cortando-as pelos joelhos. As personagens ocupam totalmente o centro de atenção do leitor podendo estes apreciar facilmente as suas feições.

© Jean-Paul Bordier

Plano Médio - PM

Aproxima-nos mais ainda das figuras; agora estas estão cortadas pela cintura. Poderemos apreciar os seus rostos assim como o que eles possam refletir. Ao plano que nos apresenta a figura cortada pelo peito chamamos de: Plano Médio Aproximado - PMA

© Glénat / Dongzi Liu

Primeiro Plano - PP

Poderemos apreciar melhor ainda a expressão das personagens, já que os limites da vinheta enquadram somente o rosto. Este plano costuma ser desenhado numa vinheta pequena e, muitas vezes, sem balão de diálogo por se tratar de um tempo breve.

© Dark horse comics / Ryan Kelly

Primeiríssimo Plano - PPP

Aproxima mais ainda a figura, mostrando somente uma parte do rosto como, por exemplo, os olhos numa expressão de medo.

© Le Lombard / Andreas

Plano de Detalhe - PD

Este plano é utilizado somente em casos especiais e serve para levar o leitor a prestar a máxima atenção a algo que tem a ver com o desenrolar da história e que, noutros planos, passaria despercebido. Uma mensagem escrita deixada sobre uma mesa, uma mão furtando algo de interessante, etc.