As cores

Cor Fria, Cor Quente. As cores do espectro dividem-se em três grupos; quentes, frias e intermédias. Cores quentes: A mais representativa deste grupo é sem dúvida o vermelho, mas também o são os amarelos, laranjas, terras (castanhos), carmins e púrpuras ou magentas. As cores quentes representam aproximação e exaltação. Cores frias: Este segundo grupo de cores dá a sensação de calma e longitude sendo o mais representativo o azul; seguem-se-lhe alguns verdes, violetas e cinzentos. Cores Intermédias: Este terceiro grupo de cores é composto pela mistura de uma cor quente com uma fria, não fazendo esse parte nem de um nem de outro grupo. Por exemplo: um verde construído por partes iguais de azul e amarelo pode ser associado tanto à gama de tons quentes como àquela de tons frios, mas pelo contrario se o azul interferir em maior quantidade na mistura, então esse verde seria uma cor fria ou vice-versa, sendo o amarelo a dominar a mistura, o verde seria de tonalidade quente.

Do Contraste ao Equilíbrio

Já falámos anteriormente como se deverá proceder para fazer realçar o centro de interesse através de linhas ou manchas; vejamos agora como o fazer realçar através do contraste de cor. Quando colorimos uma vinheta com tons quentes e nessa vinheta queremos fazer realçar o centro de interesse, o mais aconselhável seria pintar o dito centro de interesse com tons frios ou vice-versa. Um ciano contrasta com um amarelo, mas mais com um laranja e muito mais com um vermelho; para isso veja na figura 75 as mesmas cores do círculo cromático da figura anterior alinhadas duas a duas provocando assim o máximo contraste de cor.


O contraste de cor dentro da vinheta dá um maior dramatismo à cena que esta narra. Para cenas repousadas sem nada que deva saltar à vista é aconselhável o equilíbrio cromático com cores todas da mesma gama, quentes ou frias. Uma paisagem, por exemplo, a tons quentes obriga-nos a tingir parte das cores frias nela existente, tais como o azul do céu ou o verde da vegetação, com amarelos, terras e vermelhos. Assim o verde pode tomar um matiz mais quente se misturado com amarelo, e o céu, um violeta se lhe juntar-mos um pouco de vermelho. Na maioria dos casos não é obrigatório que as coisas tomem a sua cor própria. O importante é dar à cena a importância de que ela necessita para melhor ser entendida. Por exemplo, o primeiro plano de um indivíduo em cólera pode ser completamente vermelho já que só assim é que se poderia entender o seu estado de alma. Por último a valorização dos planos. Já lhe tinha falado anteriormente na perspetiva tonal, ou seja, que o ar intermédio aclara os escuros e escurece os brancos. Pois bem, com a pintura a cores essa norma deve persistir. Para uma paisagem com alguma profundidade de campo devemos intensificar o tom dos planos que se encontram mais próximos, suavizando-os à medida que se afastam.

A Luz na Noite

Como colorir uma vinheta noturna sem qualquer fonte luminosa? Aqui teremos de falsear a realidade: a cor das coisas não existe; assim, tudo será completamente azul e violeta com sombras a negro. Veja na figura abaixo. A cor da carne, as roupas, a natureza... Tudo, tudo é negro, azul e violeta, não receie exagerar.

© Le Lombard / Kas

Numa vinheta noturna onde exista uma fonte luminosa também a cor das coisas não existe, toda a vinheta será inundada por matizes quentes, só o céu poderá ser negro mas também pode ser violeta. Em torno a essa fonte luminosa, que pode ser branca, tudo será amarelo claro que se escurece à medida que se afasta até atingir um vermelho e um ocre onde a luz já chega em pouquíssima quantidade. Os últimos planos, se se tratar de uma cena no exterior, serão violeta com muitas sombras negras.

© Le Lombard / Hermann

Técnicas de Coloração

Como colorir uma BD? Qual o processo? Hoje em dia existem diversos tipos de coloração, desde os mais simples aos mais complicados que nos apresentam as vinhetas como se fossem quadros de Rembradt, Renoir ou Dali expostos num qualquer museu. Vejamos algumas.

O Falso offset e o Directo Sobre Prova de Azul

Dentro de todos os processos de coloração existem dois que praticamente já não se usam, que são: o falso offset e o direto sobre prova de azul. Em que consistem? O Falso Offset consiste em aplicar a cor em papel à parte com lápis de cor, pode ser sobre fotocópia da prancha desenhada, o colorido com todo o jogo de degradados e brilhos, este processo também inclui zonas de cor plana como os céus. Todo o trabalho viria depois a ser feito por processos de impressão, o artista limitava-se a desenhar a prancha a negro e a acompanhar a impressão para trabalhar em conjunto com o gravador, dizendo o que pretendia e o que tinha imaginado. Este processo caiu em desuso, não vale a pena aprofundar, mas é bom saber que existiu. O Direto Sobre prova de Azul tem mais trabalho do artista e é muito semelhante ao utilizado hoje em dia, que é a coloração sobre o original. Este processo embora completo não faz mais sentido nos dias de hoje pois as máquinas de impressão atuais podem separar cores com uma perfeição fotográfica. O processo consistia em, depois que o original a tinta da china estava terminado, era enviado para a editora a qual fazia uma cópia das pranchas com os desenhos a azul sobre um cartão, era sobre este cartão que o artista pintava a aguarelas guiando-se pelo desenho a azul. Este sistema também permitia pintar zonas que anteriormente não tinham sido desenhadas tais como nuvens no céu ou brilhos na água. Com este processo fica-se, então, por um lado, com a história completa a tinta da china e, pelo outro, com uma história a cores, sem traços negros. O passo seguinte será dado pelo foto-gravador que sobreporá ambas as técnicas.

Cores Planas

Este tipo de coloração é muito utilizado em BD infantil. Veja a figura abaixo. As cores são planas e carecem de sombras e brilhos. Como se faz? O desenhador limita-se a desenhar as pranchas a tinta da china negra indicando no verso da prancha a lápis de cor ou canetas de feltro a cor que deseja que o foto-gravador aplique nas páginas que irá imprimir. Para isso terá de ver a prancha em transparência para assim poder indicar a cor no sitio certo. Outra maneira de o fazer seria aplicar sobre a prancha desenhada um papel transparente e aí colorir com lápis de cor. O desenhador pode ainda escolher uma terceira opção, a de fotocopiar o original a tinta e aplicar a cor para referencia sobre a fotocópia. O processo das cores planas não obriga o desenhador a esmerar-se na pintura pois ao foto-gravador basta uma simples indicação da cor que o artista posteriormente pensou para cada vinheta.

© Le Lombard

Pintura Sobre o Original

Na figura seguinte temos um exemplo da pintura a aguarelas sobre o original. Depois do desenho a tinta da china o artista pinta a prancha com todo o jogo de cores com tintas de água, pode ser aguarela, anilinas ou ecolinas. O mercado oferece-nos uma gama cores a água que deveremos conhecer e utilizar a que mais nos convenha. Estas cores são transparentes pelo que, o desenho a tinta da china, fica sempre visível. O resultado final é muitíssimo bom pelo que eu o aconselho vivamente.

© Le Lombard / Rosinski

Em Busca da perfeição

O processo mais perfeito é sem dúvida o que encontramos na figura seguinte. Veja esta página de Enki Bilal da história “A Caçada”. Ele utilizou vários materiais sobre o desenho a lápis, a tinta da china é utilizada somente para alguns contornos. A prancha é tratada como se pintássemos um quadro com cores opacas.

© Enki Bilal

O Futuro

Em 1997 a BD começou a ser produzida nos ecrãs de computador utilizando programas de manipulação de imagem. Para produzir uma prancha com esta qualidade o desenhador procede ao trabalho de sempre, tinta sobre papel, em seguida, através de um scanner passa o desenho para o computador e pinta-o com cores planas num programa de desenho, tal como o "Colorize". Importa-o de seguida para um outro programa de manipulação de imagem, neste caso utiliza-se o poderoso PhotoShop, aqui fazem-se sombras e brilhos, nas cores já feitas anteriormente, e pode até aplicar-se filtros de efeitos especiais. O resultado é o que temos aí nessa prancha da Marvel. Para construir fundo, ambientes, mundos com alto conteúdo realista e, até, naves espaciais ricas em detalhes utiliza-se um programa a 3 dimensões: Bryce ou Extrem 3D. Os textos, e os balões podem ser escritos no CorelDRAW. O resultado final é compensador, como vê, vale a pena. Sobre a pintura de uma prancha nada mais resta dizer.

© Marvel

A Capa

A capa de um álbum de BD não serve de proteção à história nem tão pouco tem de ser vista como uma arte menor. A capa só por si é uma arte completa e complexa que nem todos os banda desenhistas se podem gabar de ter conseguido concretizar. Para criar uma capa não basta saber desenhar, pintar ou compor, há que ter um “DOM” especial, e artistas especialistas como Frank Frazetta existem poucos, infelizmente. Quando criamos uma capa sabemos a priori que ela vai ser exposta junto a muitas outras numa livraria ou quiosque; então, a nossa primeira preocupação deverá ser a de desenhar uma capa que, no meio de tantas outras, possa gritar mais alto, chamar a atenção do futuro comprador, que o faça reter-se uns momentos, a contemple, porque por isso a desenhámos, e por fim compre a obra. A capa deve portanto atrair, seduzir e convencer. Quantos de nós não fomos já seduzidos por boas capas? Eu pessoalmente já várias vezes e, nesses casos, posso dizer que comprei a obra seduzido por uma boa capa, porque a história era de baixa qualidade e de outra maneira não a compraria. Elas fizeram a sua missão, não a de enganar, mas a de atrair e convencer alguém, até mesmo quem do assunto tenha um certo conhecimento.

Que Deve Figurar Numa Capa

- O centro de interesse deverá ser claríssimo, ou seja, deve ser entendido com uma simples passagem de olhos. A confusão desvia o olhar do futuro comprador.
- Não deve desenhar numa capa mais de duas ou três figuras.
- Os fundo deverão ser pouco trabalhados, mais homogéneos, para assim fazer realçar o centro de interesse.
- Deve existir contraste de cor entre o fundo e as figuras; estas aparecerão, assim, mais realistas e apelativas, prendendo as atenções.
- A capa deve refletir o conteúdo da história, isto é, se a história é bélica a capa deverá ser desenhada sobre esse mesmo tema e não outro que possa enganar o comprador.

Como Fazer uma Capa

Geralmente as capas são pintadas a morder, isto é, sem deixar margens, pintando até aos bordos. Há, portanto, que concentrar o motivo do desenho no centro da página para que não venha a sofrer quando a reprodução seja guilhotinada às medidas onde foi impressa. Outro fator importante é o espaço para o título, que pode ser impresso tanto na parte superior como na inferior ou lateral da página; portanto, convém deixar livre de desenho a zona onde será, mais tarde, impresso o título da obra, caso contrario o desenho confundir-se-ia com as palavras, causando confusão na leitura das mesmas. Quase todos os materiais podem ser utilizados para pintar uma capa: aguarela, guache, etc. mas, ultimamente, a pintura a óleo ganhou terreno e já são poucas as obras que não contam com uma capa pintada com este material. A capa a óleo é, sem duvida, a mais cotada do mercado e, se o seu criador é realmente um artista na matéria, pode ser chamado a realizar trabalhos muito variados tais como capas de discos, vídeos, DVD's ou, até, das mais variadas revistas. Pessoalmente aconselho o óleo, isto porque é a técnica que melhor domino, mas está nas suas mãos o caminho a seguir. É óbvio que não vamos pintar sobre uma tela esticada num bastidor dado o incomodo que isto causaria no transporte ou enviar por correio para a editora, mas podemos pintar sobre cartão prensado de 2 ou 3 milímetros. Deve, para isso, impregnar o cartão com tinta acrílica branca antes de começar a desenhar pois o cartão absorve muito rapidamente o óleo e torna-se difícil pintar. Outro método é cobrir o cartão com verniz ou cola transparente e pintar em cima ou até, porque não, colar tela muito fina sobre o cartão. Se optar pelo verniz ou cola transparente é aconselhável desenhar a capa antes de aplicar esse produto. Deve começar a pintura do desenho pelos fundos, seguindo a pintura por planos e, só no fim, realizar brilhos e pequenos pormenores. Dê à ilustração uma tonalidade base, quente ou fria, e trabalhe em torno a ela, o objetivo é que a capa não fique muito “berrante” e mais sóbria, mais profissional.

Os Títulos

Como escrever o título da obra numa capa? Na verdade esse não é trabalho que nos compita, mas sim, do impressor. Nós limitamo-nos somente a aplicar sobre a capa já pintada um papel transparente com uma dobra, que é colada no verso da ilustração; sobre esse papel que cobre assim a figura pintada escrevemos a lápis de cor o título no sítio preciso onde ele deva figurar e para o qual, como disse anteriormente, foi deixado um espaço livre de desenho. Há casos em que um título pode ser pintado por nós mas isso somente quando queremos um tipo de letra por nós inventado, que não exista para impressão.